quarta-feira, abril 18, 2012

Constatações de uma vida inquieta


Aí que eu fiz 36 anos há umas duas semanas e encontrei um post deste blog que escrevi no meu aniversário de 29 (isso mesmo, há sete anos, direto do túnel do tempo). Achei divertido postá-lo novamente com as devidas atualizações. Quem teve a oportunidade de lê-lo na época, vai lembrar e perceber o que surgiu de novo. Os mais sensíveis, não se ofendam. Afinal, quem viveu tudo isso fui eu, né? E como vivi!!! =)

Já colei na escola, matei aula, fiquei de recuperação e até calotei ônibus na adolescência;

Já quis fazer História, Letras, Ciências Políticas e até Medicina depois de formada em Comunicação (viram que não rolou, né?);

Já dividi apartamento e morei sozinha por 6 anos. Voltei pra casa por mais 6 e já estou há 3 morando sozinha de novo; 

Já ganhei beijinho do Chico Buarque, os telefones dele e um pedido de "não deixe de me ligar", do próprio;

Já fiz jazz, balé, ginástica olímpica, yoga e natação. Tentei fazer tai chi chuan, capoeira, kung fu e sapateado, mas meu talento não permite tanto. Parei no Pilates;

Já tive 6 namorados e 1 namorido;

Já dei, doei, emprestei, mas nunca aluguei ou vendi;

Já fui metida a hippie, metaleira, comunista e, pasmem!, freqüentadora de exposições agropecuárias na adolescência;

Já entrei com tudo numa elétrica na rua do Beirute, achando que fosse uma garagem, em plena Sexta-Feira Santa, na primeira vez que dirigi um carro e quase destruí a loja;

Já tive catapora, nefrite, rubéola, varizes, hematomas oriundos de falta de equilíbrio, rasguei o queixo três vezes, mas nunca engessei nenhuma parte do corpo;

Já quis me chamar Mayra Cunha Fernandes, Souza, Fonseca, Pitt, Cruise e até Buarque de Holanda;

Já quis morar no Rio, São Paulo, Recife, Paris e Piauí, mas nunca arredei o pé daqui;

Posso tirar onda e dizer que já abracei, dei beijinho e troquei um lero com Morgan Freeman, Bruno Garcia, Luís Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Palhaço Carequinha e até com o Gianechinni (sim, sim, sim);

Já fui amadora, locutora, apresentadora, produtora e raladora. Hoje sou servidora;

Já li Paulo Coelho e Lair Ribeiro (ah, são pérolas da literatura tosca totalmente recomendáveis);

Já pulei cerca, subi muro, trepei em árvore e fui campeã de bolinha de gude e pião na minha quadra;

Já fui pra Ouro Preto ver o Festival de Cultura e Arte da UNE como "carregadora oficial de pratos de bateria" só pra ter uma função e conseguir carona no ônibus da banda que ia se apresentar lá, aos 16 anos;

Já viajei de Fusca de Recife para Brasília, depois de um carnaval, e demorei mais de uma semana pra chegar porque achava divertido acampar na areia de todas as praias do caminho, aos 19;

Já quebrei meu nariz de férias em Barcelona, em plena Copa do Mundo e fui em seguida pra praia e pro show do Kiss;

Já passei cinco carnavais em Olinda e um sem-número no Rio e acho que não paro por aí;

Já me fantasiei de Minie Mouse, de melindrosa e de copo de chope em festas à fantasia;

Já cozinhei mal e cozinhei bem pros amigos e minha família. Já queimei muita panela e também já recebi elogios por receitas que deram certo;

Já beijei mulher e não vi graça nenhuma, continuo achando os homens muito mais legais;

Já quebrei os dois dentes da frente numa queda na noite anterior à comemoração do meu aniversário de 32 anos. E já quebrei um deles também pulando numa piscina depois de algumas cervejas, aos 18;

Já desfilei duas vezes na Sapucaí e vi de perto o Paulinho da Viola vestido de Malandro;

Já pensei em ser espírita, atéia, Hare Krishna, astróloga e me encontrei no budismo;

Já chorei vendo A Noviça Rebelde, quis namorar o Kevin Bacon em Footloose e sonhei ser a Jenniffer Beals em Flashdance;

Já imitei a Madonna num programa de televisão local, cantando Like a Virgin, aos 10 anos (mico? imagina...) e quase me rasguei no meio de emoção ao ver um show da Diva em 2008;

Já falei fluentemente inglês, espanhol, francês, italiano e até japonês depois de algumas cervejas;

Já sofri seqüestro relâmpago e se livraram de mim assim que comecei a falar muito e querer ficar íntima;

Já fui Pato-Pateta na apresentação da escola sobre a A Arca de Noé e o "mato" em A Linda Rosa Juvenil ("...o mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor...", lembra?? e eu lá no fundo vestida numa roupa-que-imitava-grama feita de papel crepom verde, subindo e descendo, abanando as mãozinhas. Praticamente uma precursora da famosa "ôla" dos jogos de futebol).

Já escrevi uma adaptação de Cinderela para o teatro, aos 11 anos de idade, numa máquina de escrever Olivetti que foi do meu avô e que foi encenada na varanda da minha casa;

Já fui vesga, barriguda, desgrenhada e andava com os pés pra dentro que-nem-um-papagaio e acho que até dei uma melhoradinha de lá pra cá;

Já fui, já quis, já fiz, já pensei, já tentei, já larguei, já isso e já aquilo. Agora, no pós-30 estou partindo pro ainda-falta-muita-coisa.

Beijinhos sempre me preparando pro dia de amanhã.

terça-feira, março 27, 2012

Trinta e quantos, mesmo??


No próximo sábado completo 36 anos, ou melhor, 36 outonos, porque eu não nasci na primavera, me desculpem os mais puristas. Uma amiga gaiata me alertou: "Mayra, aproveita esta semana que é a última que você ainda está mais perto dos 30. A partir da semana que vem você estará mais próxima dos 40". Todo mundo tem a sua maneira de ver as coisas, não é mesmo? Eu nunca tinha visto por esse lado.

Ok, estou com 35 anos. É tanta história pra contar, tantas ressacas vividas, tantas farras aproveitadas, tanto choro e riso extravasados. São tantas paixões e desilusões perdidas. Tantos beijos, abraços e afagos. São tantas memórias, tantos brindes, tantas viagens. Tantos micos que paguei e vergonhas que passei. São 35 anos de comemorações de aniversários (nunca deixei de comemorar um só!). São tantos carnavais e festas de ano-novo. Natais com e sem a minha família. Muitas discussões inflamadas em mesas de bar, cantorias desafinadas depois da última saideira, incontáveis "fechamentos" do Beirute. São baladas, shows, filmes, livros, teatros e exposições de arte. Feijoadas, churrascos e cervejadas. Tantos pratos experimentados e panelas queimadas. Tantos elogios e críticas. Perdas e conquistas. Crises de asma, de coluna e de idade. Opa, de idade?? Acho que não.

Ah, eu me sinto bem, vai. Estou num momento de reflexão, de auto-entendimento e de vontade extrema de fazer coisas que nunca fiz! E não, eu não vou contar pra vocês que coisas são essas, tá? Favor não insistir, a gerência agradece.

Ao mesmo tempo me sinto como se tivesse com 18 anos. Tudo bem, tudo bem, sem exageros... vou completar essa idade duas vezes, então isso deve ser algum sinal, né não? Tá bom, é muita cara-de-pau da minha parte. Ou não é?? Será porque cheguei aos 36 sem (ainda) ter casado? Sem (ainda) ter tido filhos? Sou uma eterna adolescente. Ah, sou mesmo. Pergunta pra minha mãe.

O que eu sei é que a idade não está "pesando", mas as vontades estão mudando. Os anseios e medos já não são os mesmos, os planejamentos se transformaram, assim como as prioridades. Pelo menos o bom-humor continua e o jeito sapeca acho que vai conviver comigo até o fim dos meus dias, e que este - espero eu - demore muito ainda pra chegar.

Cá estou, uma mulher de quase 36 anos e que nunca teve problemas em bradar sua idade. Contando os dias do aniversário não pra ficar mais velha, mas pra comemorar como todos os anos, recebendo todo amor e carinho daqueles que sei que gostam de mim. Talvez o tempo tenha me deixado mais melancólica... De acordo com Carlos Heitor Cony, "Nostalgia é saudade do que vivi. Melancolia é saudade do que não vivi". Talvez esteja bem aí o segredo da minha proximidade com os 40. Aguardem que ainda tem muito por vir!

Parabéns e felicidades pra nós. O Maestro já dizia: "É impossível ser feliz sozinho". Será?

Beijinhos sempre aniversariantes.

quarta-feira, março 14, 2012

Diversão a seco


No meu primeiro carnaval pernambucano, nos idos de 1996:

-
Mayra, não come salsichão.
- Ah, me larga!
- Come qualquer coisa na rua, menos salsichão. Depois não diga que não avisei.

É claro que eu não ouvi o conselho do meu amigo e comi. E passei maaal, muito mal. Pus todos os meus bofes pra fora no meu primeiro dia de folia. Tive um piriri que não recomendo a ninguém no meio de Olinda e rezava pra encontrar um banheiro a cada 100m. Pra completar, faltava água na casa que tínhamos como base. Ou seja, eu me lasquei de verde e amarelo (e marrom, né? Urgh!). Ainda tive que passar o resto do carnaval inteiro bebendo água e ouvindo "Eu avisei! Eu te falei!", sem poder dizer nada. Ser teimosa tem dessas coisas. E ter 19 anos também.

Eu tenho um talento natural pra ficar sem beber em eventos onde invariavelmente se bebe, como, por exemplo, Carnaval, Copa do Mundo e no aniversário de 30 anos. Ah, e quando se está de férias na Europa no-meio-da-Copa-do-Mundo também, que é pra ser bem profissional no assunto.

Explico.

Eu inventei de fazer um tratamento pra emagrecer e entrar os 30 gostosona. Perdi seis quilos, dois números no manequim e a graça de viver. Tá, eu não perdi a graça (sem drama, Mayra!). Eu tava linda como pretendia e resolvi fazer uma festa de arromba. Minha mãe comprou garrafas e garrafas de espumante e algumas ostras para brindarmos com a família e os convidados trouxeram verdadeiros carregamentos de cerveja. Eu tomei uma taça de champanhe a noite toda e muita Coca-Cola Light. E ficou por aí. Tudo em nome da silhueta. Eu me diverti horrores, até porque eu sempre me divirto. Mas bora combinar que comemorar aniversário sem brinde perde um pouco a graça? Ainda mais quando se vira balzaca.

No mesmo ano teve a Copa do Mundo (2006) e eu ainda tava nessa de dieta. Nos jogos do Brasil eu bebi Liber (ui!!) a dar com pau, pra ver se entrava no clima da galera. Eu não entrei, é lógico. Gritei, torci e tive até ressaca no dia seguinte. Tá, não tive, mas bem que queria ter tido. Vai ver foi por esse motivo - e somente ele - que o Brasil foi eliminado. Ahã. O que eu sei é que cerveja sem álcool faz a gente ir mais ao banheiro do que a normal. E empapuça na terceira latinha. Eca!

E lá fui eu pra Europa comemorar 30 anos de amizade com uma amiga, em 2010. O bacana da nossa viagem é que era mais uma Copa do Mundo onde veríamos cada jogo do Brasil em uma cidade diferente. E eu já fui no avião falando: "Putz, esse ano eu bebo na Copa, porque na passada eu tava abstêmia, de dieta!". Aí a maluca aqui vai e se estabaca no chão em Barcelona e quebra o nariz, como muitos de vocês já sabem. O resultado? Cinco dias no anti-inflamatório e dois jogos do Brasil (e vários outros de times europeus) a seco. A sorte é que na Espanha você encontra cerveja sem álcool que preste, na pressão, em qualquer bar. Isso foi a redenção. Nem lembrei da ferida na cara e segui me divertindo, como sempre.

É fato que eu não perco a pose nem o programa, com ou sem álcool. Mas o curioso da questão é estar em eventos emblemáticos sem beber. Isso sim, dá raiva, não vou mentir. Mas sabem que eu já estou me acostumando? Este ano entrei de dieta de novo e reduzi os drinques, pra variar. Meu aniversário tá chegando e devo beber muito pouco pra não recuperar os quase quatro quilos que já se foram. Mas é claro que eu vou querer fazer tim-tim com as pessoas queridas pra comemorar, né? ? Afinal, eu vim ao mundo a passeio e o que é que as pessoas fazem quando estão passeando, hein, hein?

Beijinhos sóbrios.

quarta-feira, março 07, 2012

Maldita Crise de Abstinência



Eu tenho sonhado com coisas que eu não posso comer. Não estou falando de caviar, escargots ou do Brad Pitt. Tô falando mesmo é de Yakult no café da manhã, fatias de queijo prato cobertas com geléia de morango (sabor de infância) e um copão de Nescau gelado vendo televisão. Coisas simples assim.

Ter intolerância à lactose é uma merda, com o perdão da palavra. Mas eu não me canso de reclamar. Na verdade, ser intolerante é um inferno! Faz da gente um ser infeliz e invejoso. Se eu tivesse nascido com isso, seria mais conformada, pois não teria aproveitado 28 anos (eu disse vi-te-e-oi-to anos) da minha vida comendo de tudo que deriva do leite e achado tudo (muito) bom. Há sete anos padeço dessa "enfermidade" e sofro reclamando. Acho, sinceramente, que deveriam existir clínicas de reabilitação para pessoas como eu. Porque quando a crise de abstinência bate, eu sou capaz de comer uma bandeja de mussarela ou uma lata de leite condensado pra compensar. Só não faço porque eu sou doida mas não desse tanto.

Eu sou é um ser bem teimoso, viu. Muitas vezes chuto o balde e como mesmo sabendo que vou passar mal e colocar tudo pra fora. O pior é que à medida que o tempo tá passando, parece que minha intolerância está piorando. Talvez seja justamente por conta dessa teimosia. Antes eu não era tão dependente das "cápsulas da felicidade" (como chamo as pílulas de lactase) pra poder digerir algo com leite e hoje preciso tomar pra tudo, às vezes duas de uma vez só pra não "devolver" o alimento.

Agora para aí pra pensar num ser que cresceu tomando leite "mugido", que vinha da fazenda em galões enormes. Uma pessoa que comia queijo fabricado nessa mesma fazenda. Uma adolescente que acordava no final de semana na roça às 6h da manhã e seguia pro curral com uma caneca com Nescau pra pôr direto na teta da vaca. Pois é. Se Deus escolheu castigar alguém, fui eu. Ou esse excesso todo de leite na minha vida me tornou intolerante ou eu estou pagando algum pecado muito cabeludo.

Pra completar, eu adoro molhos à base de queijo, iogurte ou creme de leite e preciso ficar me policiando pra não fazê-los sempre que vou pra cozinha. Há quem vire pra mim e diga: "Reclama não que podia ser pior, poderia ser camarão ou glúten". Olha... eu não sei você, mas eu não costumo comer frutos do mar no café da manhã, já pão sim. Portanto, posso até concordar com o glúten (até porque, minha gente, tem na cerveja, né?), mas daí a dizerem que não posso reclamar... me desculpem, mas sim, eu posso.

Se você quiser entender o motivo, experimenta cortar o leite e todos os seus derivados por uma semana. Eu disse todos. Nem digo um mês senão você corre o risco de morrer de inanição. Sério mesmo. Eu dei um chilique no médico quando o resultado dos exames acusou a intolerância. Chorei ao me dar conta de que não haveria mais Toddynho no meu lanche do trabalho, nem iogurte light no café da manhã. Quis quebrar tudo quando fui pra França pela primeira vez, a "terra dos queijos", e passei mal praticamente todos os dias porque não abri mão de experimentar o que passasse na minha frente. Quis morrer quando lembrei que eu ODEIO tofu (aquilo é tudo, menos queijo, bora combinar?).

Agora me fala, você é cabra macho? Mulher forte? Então faz o que eu tô dizendo: corta tudo isso na sua vida por um tempo e depois me diz se não não morreu de tristeza. É que nem o retrovisor direito do carro: você só se dá conta de que faz muita falta quando fica sem. A diferença é que sem ele você não vomita, né? Se você encarar meu desafio, com certeza vai parar de dizer por aí que eu reclamo à toa.

Beijinhos sabor queijo de cabra.

terça-feira, março 06, 2012

Uma Pitada de Ânimo

Não é segredo pra ninguém que eu gosto de uma cozinha. Minha relação com as panelas vem dos tempos de criança. Meu primeiro livro de culinária chamava-se Anita na Cozinha e eu devo ter ganhado ele quando tinhas menos de dez anos de idade. Sim, a minha mãe, cozinheira de mão cheia, sempre me estimulou a aprender a cozinhar. Ainda pequena aprendi a fazer um bolo de chocolate que era sensação lá em casa. Meu irmão adorava tanto que eu tinha que assar duas fôrmas: uma pra ele e outra pro resto da casa. Aos 12, ganhei um super livro da minha mãe, livro de adulto, sabe? Fiquei super-metida e mostrava pra todas as minhas amiguinhas. A Boa Mesa, de onde até hoje eu tiro receitas. Mas meu negócio eram os doces, me aventurava muito pouco fora do mundo das sobremesas, ou seja, engordar o povo era minha diversão. Até que aos 21 anos decidi ir morar sozinha. E como diz o velho ditado: "A necessidade faz o monge". Lá fui eu tentar aprender o básico "pra sobreviver" (ai, que exagero, Mayra!).

Eu era praticamente vizinha da minha mãe e dividia um apartamento com um amigo (um verdadeiro "santo", eu diria), que foi minha primeira cobaia, coitado. Porque eu fui tinhosa e não ia almoçar na casa da mamãe. Pelo contrário. Eu ligava pra ela quase todos os dia perguntando como fazia carne moída, fritava um bife, cozinhava arroz soltinho e coisas do gênero. As aulas eram todas por telefone. Na sequência, eu ligava pro meu amigo e dizia: "vem almoçar em casa hoje que eu tô cozinhando", como se fosse uma vantagem tremenda pra ele. Acho que se tivesse vídeo-chamada naquela época eu teria visto várias vezes a expressão de medo que, possivelmente, ele fazia ao me ouvir dizer isso. Mas ele ia, comia e ainda dizia que estava ótimo!!! Melhor que encomenda, né?

Na mesma época eu tinha um namorado que cozinhava super bem e eu ficava toda acanhada de fazer algo pra ele comer. Então eu treinava escondida em casa, quando estava só, com medo de alguém confundir meu apartamento com o Vaticano quando surgia uma fumaça saindo pela janela. Não, eu não tinha escolhido o novo Papa, tinha era queimado alguma coisa mesmo. E assim eu fui, perseverando e experimentando receitas.

Mesmo depois de voltar a morar com a minha mãe, arriscava encarar o fogão de vez em quando pra não perder o hábito. E só então, na minha última saída de casa pra morar sozinha de novo, eu encarei com determinação a ideia de cozinhar com frequência. Nisso, hoje eu faço comida em casa quase todos os dias. E ainda aproveito pra chamar os amigos para experimentarem e me darem suas notas de vez em quando.

Nunca mais eu escrevi aqui no blog, sabe-se lá o motivo. Talvez por preguiça ou por falta de assunto. Até pensei em encerrá-lo de vez e dar um delete no endereço. "Chega de blog, já se vão dez anos, né?". Mas aí eu pensei: por que não escrever sobre outros assuntos daqui pra frente que não sejam só as peripécias da minha vida? Por que não compartilhar uma ou outra experiência gastronômica, com meu já conhecido texto, com vocês? Por que não aproveitar que este blog já tem nome de coisa de comer e me empolgar de novo em trocar umas palavrinhas com quem sempre me leu?

E aqui estou. Querendo voltar a escrever sobre vários assuntos, querendo colocar as idéias em ordem e, muito provavelmente, doida pra dividir com vocês meus pequenos momentos solitários no castelo que agora tem uma cozinha de verdade (a outra era de casa de boneca, juro!), onde eu invento e testo as mais divertidas receitas. E não, a fumaça do conclave nunca mais saiu pelos meus cobogós. Eu agora virei gente grande e até que me garanto com uma colher-de-pau na mão. Pelo menos é o que tenho escutado por quem já provou do que ela faz. E aí, quer continuar provando do meu Milk Shake?

Beijinhos culinários de jornalista prendada.

sexta-feira, setembro 09, 2011

A Princesa e seu Castelo


Sumi, né? Dei um tempo daqui, cansei de vocês, cansei do mundo, deste blog... Mentira! Eu tava era alucinada administrando a reforma do meu apartamento e quase pedi pro mundo parar pra eu descer. Não tá fácil pra ninguém.

Existem determinados talentos que são realmente inatos. Tocar obra, por exemplo, é um deles. Descobri nos últimos meses que não tenho nenhuma vocação pra lidar com pedreiro, bombeiro e qualquer outro "eiro" que envolva uma reforma. Aliás, eu tive a certeza de que nunca vou construir nada nesta vida (de alvenaria, digo). Sim, eu tenho meu lado princesa.

E enfim eu me mudei de casa esta semana. Saí do meu lindo cafofo para o meu lindo castelo. Fiz um upgrade de 70 para 95 metros quadrados de pura felicidade. E sabem por que? O apartamento é meu em sociedade com meu irmão. Sem mais. Nada melhor do que morar no que é seu, não é mesmo? Não joguei no Pião da Casa Própria do Sílvio Santos mas foi como se fosse. E como todo apartamento antigo, precisava de reparos, muitos reparos.

Enfrentei a situação com unhas e dentes. Eu tinha janelas e portas pra trocar, piso pra arrumar, paredes pra pintar e buracos pra tapar. A primeira coisa que descobri é que não se deve nunca (eu disse NUNCA) acreditar nos prazos que te dão para entrega do serviço. Eles mentem, acredite em mim. Lição número dois: se você reforma a janela, vai ter que mexer na parede. Se quebrar a porta, vai ter que mexer no piso. E se recuperar o piso, vai ter que retocar o rodapé. E assim, su-ces-si-va-men-te. Ou seja, mudar uma coisa significa mudar várias outras e nessa brincadeira, o salário ó, não dá nem pro cheiro.

Outra coisa interessante é desbravar o incrível mundo dos materiais de construção. Olha que eu gosto de lidar com coisas de casa, gosto de decoração, gosto de detalhes. Mas daí a saber qual é o melhor rejunte e massa corrida, ultrapassa meus limites. Todo os dias o responsável pela obra me ligava pra dizer uma coisa diferente: "Ô Dona Mayra, tem que trocar a soleira da porta também que tá rachada, compra de granito!". Soleira? Que porra é essa? "Dona Mayra, vai ter que comprar outra tinta porque do lado de fora a cor é diferente. Mas traz látex acetinado, viu?". Hein? "Dona Mayra, compra o alizar de 17cm porque sua porta é mais larga!". Alisar quem? Eu quero a minha mãe!

Depois de muita dor de cabeça, stress, vontade de me jogar pelas janelas novas enforcada no cabo de força, deu tudo certo. Quer dizer... está dando. Porque agora começam as benfeitorias (gente, adoro essa palavra!) que serão realizadas comigo dentro do imóvel. Ahã. O bom é que agora não há pressa, não há desespero e nem a frustração de pensar que está gastando com algo que não será seu. Assim como o tempo, a despesa não pára, mas o gosto de investir no que é da gente não tem preço (cadê a Mastercard numa hora dessas?).

A mudança foi um fardo. Decidi que encaixotaria tudo eu mesma. Consegui juntar em dois anos o que acho que não juntei nos outros seis em que morei sozinha. Como o ser humano acumula coisas, né? Principalmente um ser humano de 1,58m, espevitado que atende pelo nome de Mayra. Tudo bem que 50% da minha tralha são coisas de cozinha. E não fala nada não porque você pode ser o próximo a usufruir do que esses utensílios fazem, tá?

Ainda cercada de caixas (foram umas 30, juropordeos!) estou muito feliz! Meu castelo está ficando cada vez mais parecido comigo e com cara de lar. E digo com veemência: se tiver que me meter em obra de novo, pago alguém pra fazer isso por mim. É que nem cerimonial de casamento: é caro mas você contrata pra não ter dor de cabeça, pelo menos é o que reza a lenda... Deixa eu acreditar nisso um pouquinho, vai?

Beijinhos com cheiro de tinta e sinteco novos.

sexta-feira, julho 15, 2011

A carteira perdida - o desfecho



E então, quatro dias depois do cara perder a carteira, eu achar e perder de novo, ele me manda uma mensagem no Facebook (confesso que me tremi toda quando vi. Com que cara eu ia dizer que a carteira não estava mais comigo?) :

"Mayra, muito obrigado. Já peguei a carteira com o Ricardo no hotel. Valeu mesmo. Abraços."

Que Ricardo?? Que hotel, cara pálida?? Um ponto de interrogação foi gravado na minha testa naquele instante.

Eu devia ter ficado feliz com o desfecho final da saga da carteira duplamente perdida e tocado a vida. Afinal, ele a tinha recuperado. Mas não. A pulguinha atrás da minha orelha não permitiu que eu desse o caso por encerrado. Respondi ao moço:

"Que boa notícia! Espero que ela tenha chegado a você da mesma forma que eu a encontrei, pois houve uns contratempos entre ela sair das minhas mãos e chegar às suas..."

Que phyna eu sou, não é mesmo? É claro que eu plantei a semente da dúvida na cabeça do cara. Em poucos minutos, recebi uma resposta: "O que aconteceu, Mayra???". Assim, cheinha de pontos de interrogação. Então eu resolvi ser má. Ah, o cara demorou quatro dias pra me dar notícias de vida e agora eu vou passar o texto todinho assim, de bandeja? De jeito nenhum!!! Eu quis me divertir um pouco e incorporei o Sherlock que habita meu ser.

Demorei 24 horas pra responder. É isso aí. E ainda pensei: a carteira já tá com ele, oras, então não tem problema eu dizer a verdade, né?

Fui lá e contei, sem riqueza de detalhes, o que havia acontecido. E terminei com a frase-clímax: "Quem é Ricardo? Que história é essa de hotel?". Ser viciada em Rubem Fonseca faz isso com a gente.

Só que o cara resolveu entrar na minha onda de criar expectativa, mistério, luxo, poder e sedução (tá, nem tanto) e demorou outras 24 horas pra me responder. Ai cacete!!! Ansiosa como sou, nunca me arrependi tanto de inventar moda... Nesse meio tempo, fiquei viajando no que ele ia estar pensando: "Essa mulher é uma louca!!!". Ou: "Que história ótima!". Aí já comecei a pensar que a gente ia marcar um café e rir disso tudo, virando os melhores amigos do mundo. Sim, eu assisto muita comédia romântica. Detalhe que eu só vi a foto 3x4 dele na habilitação, porque no Facebook tinha uma criança sorrindo. Um verdadeiro tiro no escuro, porque a gente sabe que ninguém fica bem em foto de documento. Nem o Brad Pitt, aposto.

Aí ele só escreve assim: "Segunda-feira esse Ricardo me ligou dizendo que tinha encontrado minha carteira num táxi e que estava hospedado num hotel. Fui lá e peguei. Essa história dava um livro, hein?".

Tem senso de humor. Gostei. E olha, um livro eu não sei, mas já rendeu dois posts deste blog. Minha única questão pra sossegar de vez com isso tudo, era esclarecer a dúvida maior: como esse tal de Ricardo ligou pra ele se eu revirei aquela carteira inteirinha e não achei telefone nenhum? Será que ligou pra tal Karina? Decifrou algum código que eu não pesquei? O que esse Ricardo tem que eu não tenho??? Respondi mais uma vez perguntando isso em poucas linhas.

A resposta? O crescente soar de grilos: cri-cri-cri-cri-cri. Sim, meus amigos, nunca mais esse moço me respondeu. Nunca mais deu notícias de vida. Nunca mais disse uma simples palavrinha. E eu, querendo aplicar o que aprendo nos romances policiais que leio me saí uma péssima detetive, sem ter o principal desfecho da minha história.

Bom, pelo menos o cara tá lá com a Cartier-Paris de volta no bolso, né? Perdeu a chance de um café divertido na vida dele. Só digo isso. Porque eu sou uma pessoa de bom coração e sempre disposta ajudar o próximo, mesmo quando ele está bem feinho na foto da CNH.

Beijinhos faltando uma peça do quebra-cabeças.

terça-feira, julho 05, 2011

Achada e Perdida


Eu costumo dizer que minha mãe é um personagem de tirinhas de jornal. Toda semana tem uma história diferente, engraçada, digna de ser contada pras pessoas. Então eu descobri que realmente sou filha dela e não fico muito longe de ser um desses personagens também. Sabe aquelas pessoas que você diz "têm coisas que só acontecem com você?", pois é, sou eu. Quem conhece este blog há muito tempo, sabe disso.

E este final de semana aconteceu mais um episódio que merece virar post. Aliás, quando comentei com as pessoas do ocorrido, foi a frase que eu mais ouvi: "essa tem que ir pro blog". Por isso, cá estou.

Mayroca já não é uma pessoa muito tranquila, ou melhor dizendo, que fique muito tempo parada, sem aprontar alguma coisa. Pegando o embalo desse meu ritmo de vida, fui me divertir numa festa famosa em Brasília, da escola Vivendo e Aprendendo. É gente que sai pelo ladrão, duas pistas de dança e um povo pra lá de bonito. Lá fui eu, marcar minha presença.

Tudo começou quando resolvi visitar um banheiro químico. Depois de terminado meu serviço, ao lado do rolo de papel eu encontrei uma carteira perdida. Isso mesmo. Alguém esqueceu ou deixou cair uma carteira "Cartier, Paris" (sim, sim, sim) com tudo dentro e devia estar louco à procura, pensava eu.

(Nota mental: por que as pessoas insistem em sair pra balada com todos os documentos, cartões, talões de cheque e carteirinhas de mil coisas diferentes? Principalmente quando sabem que vão encher a cara, deveriam deixar o máximo possível de coisas em casa pra evitar maiores dores de cabeça provenientes não apenas do álcool.)

Guardei a carteira na minha bolsa e procurei uma seção de Achados e Perdidos na festa. Não encontrei. Mas confesso que também não procurei com tanto afinco, pois estava mais empenhada em dançar que qualquer outra coisa. Pensei: "amanhã eu dou um jeito de localizar essa pessoa e devolvo tudo pra ela". Ok.

Acordo no domingo e lembro que tinha uma boa ação a ser feita. Reviro a carteira do cidadão à procura de qualquer pista que me ajudasse a entrar em contato com ele. Descobri que cursou Contabilidade na UnB, frequenta bons restaurantes (comprovantes de cartão hoje só servem pra isso, pra alguém saber melhor da sua vida e deixar a carteira mais gorda) e que passa muitos cheques (canhotos e canhotos). Nada aparecia pra facilitar a minha vida. Eis que encontro um pedaço de guardanapo escrito em letras tortas "Karina" e um telefone rabiscado. Mas aí eu pensei: "E se essa Karina foi alguém que ele conheceu na night e mal conhece? E se ela não quiser que ele ligue de volta? Pior!! E se eu ligar e ela achar que eu sou a mulher louca do cara querendo tirar satisfações?". No way! Deixei o papel ali de stand by e continuei minha busca por outra forma de contato.

No meio disso tudo, me arrumo pra ir pro Pontão do Lago Sul, complexo de restaurantes e área de lazer que reúne a maior concentração de carros de bacanas por metro quadrado em Brasília. Peguei um táxi e fui encontrar uns amigos, já que meu destino era uma cervejaria e provavelmente eu não passaria num bafômetro na volta pra casa. Pouco antes de sair de casa, tenho a brilhante idéia de jogar o nome do infeliz proprietário de uma carteira perdida no Facebook pra ver se descubro alguma coisa. Bingo! O cara tava lá! O nome completinho!! Consegui mandar uma singela mensagem: "Oi, achei sua carteira na festa da Vivendo, me liga". Aliviada, decidi levar a carteira comigo, caso ele ligasse e já quisesse me encontrar pra resgatá-la. Ufa!!

Cheguei no Pontão no começo da tarde e saí de lá no começo da noite. Esse cidadão NUNCA me deu notícias. Ou não está preocupado com o que perdeu ou então é um desligado mesmo. Porque se fosse eu, já tinha acessado tudo o que eu pudesse pra saber se alguém estava com meus documentos. Ema, ema, ema, cada um com seu problema. Da cervejaria fui pra outro restaurante encontrar meu irmão e amigos, onde rolava um sambão. Dancei, me diverti e cansei. Peguei outro táxi pra casa, rumo aos braços de Morfeu.

Segunda-feira eu acordo e vou me preparar pra mais uma semana que começa. Dia longo no trabalho e muita coisa pra fazer. Pego minha bolsa pra ir trabalhar e... cadê a carteira do rapaz que estava aqui? O gato comeu!!! Isso mesmo, minha gente, eu perdi!!! E não adianta brigar comigo porque quem perdeu primeiro foi ele. Ora essa... Não estava na minha bolsa, não estava na minha casa e eu só posso pensar que deve ter caído no meio do samba ou no táxi (que eu peguei no meio da rua). Fiquei completamente alucinada procurando por ela e nada. Então relaxei e tive um momento Pollyanna: antes a dele do que a minha, bora combinar?

Nunca o termo "achados e perdidos" fez tanto sentido! Essa carteira criou pernas desde sábado e hoje já é terça. Até agora, ninguém se preocupou com ela, a não ser eu. E tô aqui fazendo mentalização pra que esse cidadão não me ligue nunca, porque eu até agora não sei o que vou dizer... "Oi... errr.... pois é, sua carteira tava comigo e agora não está mais! Veja que coisa!". Só fico na torcida pra que alguém com a mesma boa intenção que eu (ah, eu tentei, néam?) a tenha encontrado e consiga devolvê-la sã e salva. Porque achar uma carteira na Asa Norte e perdê-la no Lago Sul é uma coisa que só Mayra Cunha consegue fazer!

Beijinhos de quem tá até agora pensando que isso é uma pegadinha.

segunda-feira, junho 20, 2011

Eu, o Milk Shake e nós todos


Aí que eu trabalhava na Rede Transporte, TV da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e fazia boletins diários com notícias relativas ao tema. Passava o dia todo recolhendo notas e reescrevendo pra gravar em off (sim, já fui locutora). Nessa brincadeira, eu lia de tudo um pouco na Internet e nem existiam redes sociais ou blogs pra gente compartilhar as coisas legais. Foi aí que eu criei o Clipping da Maklovia. Explico.

Cada vez que eu encontrava uma notícia interessante, sobre qualquer assunto (na maior parte das vezes, do mundo bizarro), eu copiava e colava num arquivo de Word. Aí no fim do dia eu enviava esse arquivo por email pros amigos, que liam ou não (esse problema já não era meu). Um processo bem primitivo que funcionava bem (o que hoje a gente faz fácil-fácil num Facebook da vida). Até que um dia, um desses amigos me disse: "Mayra, faz um blog". Faz o que, meu amigo???

Eu, que não fazia a mínima idéia do que se tratava, do que seria esse tal de blog, tive uma resistência real e imediata à nova tecnologia. Na minha cabeça aquilo ia dar muito mais trabalho do que o meu Ctrl V + Ctrl C habitual pra fazer o Clipping. Mas como o que é bom a gente aprende rápido, logo estava eu postando as notícias e divulgando somente o link: sucesso total. Me senti "a blogueira". Foi aí que eu pensei: "Pôxa, eu podia criar um negócio desses pra compartilhar textos meus!". E aí nascia o Milk Shake, no final de 2001.

No segundo semestre deste ano, este blog (não necessariamente neste endereço) completa 10 anos de atividade. Sim, eu disse dez. Nem eu acredito que já se passou tanto tempo assim. No início eu me empolguei geral e escrevia todos-os-dias. Eu não tinha a real noção do alcance desse troço e falava da minha vida como se tivesse no telefone fofocando com as amigas. Exposição geral e irrestrita. Contava minhas peripécias de garota solteira, minhas trapalhadas de pessoa espevitada e comentava notícias com tons indignados, abraçando causas ou condenando certos preconceitos. Tudo com riqueza de detalhes. E os leitores adoravam. Aliás, quanto mais sórdidas, engraçadas ou pitorescas as histórias, mais visitantes eu tinha. O ser humano tem uma curiosidade patológica de saber da vida das pessoas.

O blog começou a dar o que falar na rede e eu achei que ele tinha que ficar mais bonitinho, com um layout próprio, mas eu não sabia fazer isso sozinha e não conhecia ninguém que pudesse me ajudar. Então arregacei as mangas, descobri um curso online de linguagem HTML e formatei ele inteirinho, fazendo tudo pelo código-fonte. Totalmente na raça e autodidata. E ele ficou bacana, digo pra vocês. Comecei a me comunicar com outros blogueiros, trocava dicas de templates (layouts pra web) e ferramentas para incrementar a página. Assim, fiz alguns bons amigos com quem mantenho relações até hoje (diga-se de passagem, até madrinha de casamento eu fui da minha querida Dona Baratinha). Eu entrei de cabeça nesse mundo, participando de encontro de blogueiros, mesas redondas e tudo mais. E sim, eu tinha (muito) mais o que fazer. Trabalhava, estudava, namorava e tinha vida social dentro e fora da Internet. Nem sei como.

Meu blog bombou. Teve uma repercussão que eu nunca esperei. Encabeçou a lista dos 10 melhores blogs da Globo.com por alguns meses, teve várias citações em jornais, foi selecionado pelo site GNT para ser indicado no site do canal por um mês inteiro. E eu confesso, não sei de onde tirava tanta história pra contar. Hoje eu fico "mais de mês" sem postar aqui e quando sento pra fazer isso, geralmente não tenho muito a dizer. Haja imaginação e disposição. Será que fiquei velha pra isso?

E nesses dez anos foram muitos textos publicados, muita saia justa, muitas declarações e elogios, muita rasgação de seda e compartilhamento de micos que paguei. O mais legal é ver até hoje alguns leitores fiéis, que me seguem pra onde eu vou (este já é o terceiro endereço onde hospedo o Milk Shake).

Eu podia esperar até o fim do ano pra comemorar esses 10 anos de blog, mas preferi fazer isso agora. Estou aqui pra agradecer, pra dizer aos que param uns minutos pra ler o que escrevo que o meu ânimo de manter esta página vem do retorno que tenho de vocês. Obrigada por cada comentário, cada email que vocês me enviam e enviaram ao longo desse tempo todo. Às sugestões, críticas e afagos. Aos discursos inflamados, dicas e reclamações. O Milk Shake só durou até hoje porque eu recebo o carinho de quem gosta das minhas (às vezes, maltratadas) linhas. E não, isso não é uma despedida, embora o tom pareça. É apenas uma celebração de algo que ainda pode (e deve) durar mais uns anos. Valeu por dividirem esse milk shake comigo. Tim-tim!

Beijinhos apagando velinhas antecipadas de parabéns.

terça-feira, maio 31, 2011

Eu só queria entender!



Eu só queria entender. Nada mais que isso. Somente entender porque Brasília, capital do país, não possui hoje um cinema dedicado ao circuito alternativo. Com a "morte" da Academia de Tênis, filmes cult que andam ganhando prêmios por aí e que sempre tiveram público cativo na capital federal, não têm mais onde serem exibidos. Eu só queria entender o porquê disso.

Não, eu não consigo compreender porque uma cidade hoje com porte de cidade grande, com títulos de terceiro pólo gastronômico do país ou o quarto lugar do Brasil em número de barcos, não investe em cultura. Ou melhor, não prioriza o bom cinema, dirigido a poucos e sucumbe aos blockbusters.

Longe de mim menosprezar o cinema comercial, eu mesma assisto ao que passa nas grandes salas. Mas eu só queria entender porque salas como o Embracine, instaladas em um shopping de luxo da cidade, acumulam dívidas e vai fechar suas portas. Um lugar que tinha como proposta em sua abertura, o mix de filmes pops, cults e nacionais. Sim senhor, a idéia era essa. Aqui o que não me deixa mentir:

As oito salas de cinema estão no CasaPark com o objetivo de atingir um público exigente, que gosta de conforto e qualidade e uma programação variada. A Embracine traz salas de alto nível técnico com 1500 lugares e a programação passa por uma curadoria rigorosa que inclui desde os sucessos de Hollywood, Cannes e Berlim até a cinematografia escandinava, brasileira, latino-americana, asiática, européia, além de mostras temáticas, sessões comentadas, projeto cinema-escola e programas de curtas metragens.

Alguém consegue me explicar - porque eu realmente não entendo - como a capital brasileira não tem onde abrigar com qualidade, o cinema que se faz pelo mundo? O cinema que muitas vezes nos diz o que as produções norte-americanas procuram esconder? Os clássicos que fazem parte da formação cultural de qualquer pessoa comum que tenha um mínimo de interesse pelo assunto? Justo uma cidade onde crescem os cursos de cinema em faculdades, não oferece programação diversificada? Será que estamos fadados a engolir o cinema comercial goela abaixo enquanto não aparece quem queira mudar isso?

Eu fico aqui me perguntando como é que estamos em 2011 e Brasília não possui um lugar destinado ao cinema alternativo. No início dos anos 90 (olhem que estou falando em vinte anos atrás), era possível assistir a bons filmes no Cine Brasília (cadê suas mostras de cinema de várias partes do mundo?), no Cinema da Cultura Inglesa (uma salinha pequena onde pude assistir alguns dos filmes mais importantes que já vi) e em outros lugares afins. Por que raios hoje não há um empresário ou quem-quer-que-seja, com condições de bancar isso, pra investir nas salas pequenas, fora dos shoppings, como Espaços Unibanco, UOL ou Itaú? Quem foi que disse que só em São Paulo e Rio de Janeiro há apaixonados pela sétima arte? Hein? Hein?

Eu tinha uns 15 ou 16 anos quando ia com minhas amigas, todo santo-domingo, de ônibus, ao Cine Brasília acompanhar a mostra que tivesse em cartaz. Hoje estou com 35 e não tenho essa opção! Tive o privilégio de conhecer a fase mexicana do cineasta espanhol Luís Buñuel, assistir clássicos como Casablanca, Encouraçado Potemkin e Psicose na telona. E na maior parte das vezes, de graça!!! Hoje... nem pagando!! Conheci o cinema dinamarquês quando não se falava em Dogma, tive acesso aos cinemas asiático e indiano (o famoso "Bollywood"). Foi nessa mesma época que pude descobrir, por mim mesma, que achava Godard um saco e que amava o Fellini mais do que tudo.

Hoje eu tenho uma irmã de 18 anos que estuda cinema e vez ou outra me pergunta onde encontrar esse ou aquele filme-referência pras suas pesquisas. E não falo só dos clássicos, mas do que é produzido hoje, que participa de festivais internacionais e não chega a Brasília porque não tem onde ser exibido. A opção é ir contra todas as teorias politicamente corretas contra a pirataria e baixar da Internet (Oi? Tô errada??). Porque nem as locadoras estão sobrevivendo pra ajudar a contar essa história. Quem tem uma resposta pra isso? Eu, honestamente, só queria entender.

Bejinhos revoltosos.

sexta-feira, maio 06, 2011

Envelhecer é perder amigos


Aviso logo: este não é um post divertido. E digo também: essa história de perder pessoas não é legal. Não mesmo. Eu queria saber porque desde que eu me entendo por gente se diz que o brasileiro não é educado culturalmente pra entender a morte e ninguém faz nada pra mudar isso. Hello? Os orientais e os mexicanos estão aí pra nos ensinar algumas coisinhas. Vamos tentar aprender com eles?

No último mês duas pessoas muito queridas se foram: um colega de trabalho e um dos melhores amigos do meu irmão, que eu via em casa desde que eram moleques. E quer saber? Doeu. E ainda dói. E a dor vem por vários motivos. É a revolta por terem morrido cedo (36 e 27 anos, respectivamente). É a impotência de não poder fazer nada pra mudar isso. É a raiva de uma doença diabólica como o câncer, que ninguém consegue prevenir ou dar jeito depois que ela chega e toma conta. É a esperança perdida depois de um traumatismo craniano causado por um acidente de carro bobo, razão de uma imprudência. É a sensação de querer voltar no tempo pra rever os sorrisos deles e dar um último abraço e ter que engolir seco a triste realidade.

No meu trabalho o clima entre os que conheciam nosso amigo foi o pior de todos. Comoção geral. Em casa, um irmão está com o coração despedaçado com sua primeira perda de verdade. E eu queria poder fazer alguma coisa além de sentir uma dor profunda e muita vontade de chorar quando revejo fotos ou se toca no assunto. Só posso dar meu alento.

É necessário saber lidar com a morte. É importante tentar entender como tudo isso acontece e que a vida segue, por piores que sejam as circunstâncias. É difícil controlar os sentimentos e a dor que toma conta da gente. Esses acontecimentos tristes me fizeram lembrar de uma aula de literatura em que o professor explicava a frase célebre de Fernando Pessoa: "Navegar é preciso, viver não é preciso". Nada mais impreciso que a vida. Nada mais complicado de se definir, criar regras e conduzir do que o ato de viver. E é por isso que a gente deve aprender a dizer o que o coração sente, abraçar quem a gente ama, transmitir e mostrar todo o carinho e amor que a gente sente pelas pessoas queridas. Ao menos nos dá a sensação de que elas foram em paz sabendo que não passaram por aqui em vão.

Infelizmente, eu não tive tempo de fazer isso com essas duas novas estrelinhas que estão no céu. Mas esses momentos fazem a gente refletir e ter vontade de mudar alguma coisa, nem que seja a forma de sofrer e de dar amparo aos que ficam.

Como dizia um conhecido que também já se foi: "Envelhecer é perder amigos". Uma pena que isso seja uma verdade tão dura de se aceitar.

Beijinhos consternados pra vocês. Sintam-se todos abraçados e beijados por mim hoje.