quarta-feira, julho 04, 2012

The Book is on the Table, EVER!



(Texto publicado em 30 de abril de 2005)


Eu não sei falar inglês. Eu finjo que sei. Aliás, finjo muito bem, se querem saber. Pra não pensarem que sou uma completa ignorante no assunto, posso dizer que me saio muito bem quando tomo umas e outras ou quando estou sob pressão. Aí viro poliglota. Faço até tradução simultânea. Ahã. 


A coisa funciona assim: no meu estado normal (sim, ele existe) eu entendo até bem quando ouço alguém falando e leio em inglês direitinho. O problema é que eu moooorro de vergonha de falar. O pouco que eu aprendi me garante a comunicação (gente, eu me comunico sempre e de qualquer jeito, é bom que isso fique claro!), mas eu não sei construir frases muito bem. Para acabar com essa vergonha, só (muito) álcool. Ou a necessidade pura e simples. Oh yes!


Momento será-que-dá-pra-chamar-ela-ou-tá-difícil?? 


Há alguns anos, minha adorável prima foi fazer um curso no Japão. Nessa época, eu morava sozinha e adorava dar telefonemas de madrugada pra todo mundo, uma vez que eu chegava tarde em casa das baladas e a tarifa era mais barata. Imaginem então pro Japão, já que rolava sempre a diferença de fuso e aquela sensação de não acordar ninguém, pois era dia lá!!! Até que Ana Paula Arósio me aparece com aquele rostinho de boneca na tv e me conta que ligar pro Japão tá com um precinho ótimo com o 21. Ôpa!!! Vamos nessa!! Cheguei em casa por volta das 4h da manhã já animadíssima de tanta cerveja e decidi matar saudades da priminha. Liguei pra escola dela e uma voz ajaponezada atendeu falando-qualquer-coisa-que-eu-não-entendi (ah, gente, entender inglês já é difícil, falado por um japonês então... tão querendo muito!!), supus ser algo tipo "Escola Japonesa Que Ensina Brasileiros, boa tarde". Fiz voz de aeroporto e falei (vagarosamente): 


- Please, I want to talk with Clarissa Carvalho. Room eight-eight-seven. (ufa! Acho que consegui!). 

- Origami sukiyaki ikebana karate. 
- Helloo-ôu! I said room eight-eight-seven, please! 

- Cri-cri-cri...
- Helloo-ôu! I said room eight-eight-seven, please! - Sushi sashimi tai chi chuan sayonara. 

Eu tava quase ficando louca e me convencendo que um sobrinho do Buda tinha atendido ao telefone, até que um ser falou comigo em inglês e me disse que minha prima tava viajando pra Tóquio, a passeio (chato, né?). Pra não perder a ligação, passei boa parte da noite conversando como o fulano, um tal de André. Não entendi bem de onde ele era nem que curso tava fazendo. Mas dei boas gargalhadas (garanto que ele também) depois de meia hora de papo. Tive a certeza de que tinha me saído bem quando falei com minha prima num outro telefonema e ela me disse tudo o que nós tínhamos conversado (ele contou pra ela). Ponto pra mim! A coisa foi tão bacana que eu até pedia pra chamá-lo quando ligava e ela não podia atender. Virou meu melhor amigo (ahã).  O que a cachaça não faz... 


Momento pra-holandês-ver: 


1997, carnaval em Olinda. Eu e Mrs. Aviani chegamos com nossas mochilonas e fomos procurar a casa onde iríamos nos hospedar. Como não tínhamos compromisso com nada, o calor tava grande e as ladeiras não acabavam nunca, decidimos sentar num boteco e tomar uma gelada para descansar um pouco e continuar a jornada (tão pensando que é fácil desfilar por aquelas ruas com um peso enorme nas costas??). Relaxamos tanto que encontrar a casa virou um mero detalhe. Eis que passa na nossa frente um cara leeeeiiiindo, sem camisa, com umas tatuagens bacanérrimas e um bronzeado-de-gringo sem igual, com cara de perdido. Como nós. Ficamos só babando. Eita que esse carnaval promete... 


Quando encontramos a casa que tínhamos alugado junto com a torcida do Flamengo, a do Corinthians e a do Sport Club do Recife (affe, nunca vi tanta gente num lugar só!), demos de cara com quem, com quem???? Uma nota, Maestro Zezinho!!! O cidadão-tatuado-no-braço-calção-corpo-aberto-no-espaço-coraçãããão!!! Isso mesmo, o gringo gato com cara de perdido que tínhamos visto lá no bar. O mocinho também estava hospedado na nossa casa. (Batendo palmas, clap clap. Dando um grito uuuuuu. Levanta a mão passando energia!!!). Só nos restou fazer amizade, é claro (depois das cervejas, tudo é possível). 


Descobri que o bofe era holandês, morto de lindo e gente boa (muito boa), estava no Brasil há dois meses, rodando todo o litoral. Conversei horroooooooooooooores com ele. Não sei de onde saiu tanto vocabulário. O inglês saiu com uma naturalidade incrível (o que não é a necessidade misturada com o álcool, hein?). Eu estava me sentindo a própria colaboradora da revista Speak Up naquele momento. A sintonia foi tanta que arrumei um namoradinho holandês de quebra pra passar o carnaval inteiro (boba, eu???) e ainda treinar a "língua". Hohohoho.. Afinal, eu estava ali de passagem... 


Momento help-I-need-somebody! 



2002, Festival Internacional de Cinema de Brasília, na Academia de Tênis. Eu trabalhava na produção e minha amiga Marina trabalhava como hostess dos diretores, atores, produtores do mundo todo que participaram do evento. Um deles era ninguém menos que Morgan Freeman. Marina era a responsável por andar com ele pra cima e pra baixo, traduzindo tudo que ele dizia. Tinha vindo pra lançar o filme (péssimo, por sinal) Crimes em Primeiro Grau, que seria exibido no antigo Americel Hall, a maior sala de espetáculos de Brasília. 

Sala lotada de gente ansiosa e todo mundo do staff nervoso. Marina deixou Morgan (para os íntimos, tá?) comigo enquanto organizava tudo no restaurante para onde ele iria na seqüência, depois de apresentar o filme pro público. Até aí, tudo bem. Eu só precisava dizer algo tipo "Come here, Morgan. Follow me". Ele só tinha que me seguir até o camarim. Fácil essa parte. Tiraria de letra.


Faltando 40 minutos para ele entrar em cena e o filme ser projetado, cai uma fase de luz e o teatro fica quase às escuras. Pânico na torre. Ou seria no camarim??? Eu lá com Morgan, tentando manter a calma e fingindo naturalidade. Pelo rádio, chamei o pessoal da produção e em bom português perguntei o que estava acontecendo (e ele me olhando do alto de seus quase 2 metros de altura). Pediram pra eu manter a calma pois a CEB já estava a caminho para resolver o problema. Oh my Gawd!! 


Agora imaginem aí uma mulher-que-não-fala-inglês, sozinha num camarim com Morgan Freeman. Pois é. Ele, a simpatia em pessoa, olha pra mim e pergunta se estou bem. Digo "yes". Ele pergunta se estou nervosa. "Yes", novamente. E se pode me ajudar. Gaguejei "No, yes, no, yes...". Foi aí que me denunciei. Olhei pra ele e disse que meu inglês não era muito bom, mas que eu faria o possível para ele me entender direitinho. Ele respondeu com voz de ator-do-Seven "tenho certeza que seu inglês é muito melhor que meu português" (ai que fofo!). Falei macarrônicamente o que estava ocorrendo e que só nos restava aguardar. Ufa!! Consegui de novo!! 


Até que entram no camarim a mulher dele, a filha, a empresária e o Peter (até hoje não entendi se era amigo ou segurança ou os dois juntos). Juro pra vocês que nessa hora eu quis sair correndo e me atirar de cima do palco dando um moche pra platéia. Como assim eu vou ter que me comunicar com esse tanto de gente ao mesmo tempo??? Cadê a Marina???? Eu quero a minha mãe!!! Putz. 


Resumo da ópera: Morgan falou pra eles o que estava acontecendo, ficaram todos esperando animadamente, contando piadas (que eu entendia!!! Rá!) e rindo à beça. Foi lindo!!! E eu lá, jurando amizade. Falando inglês "fluentemente" e contando mil histórias (e sem álcool, afinal, eu estava trabalhando!!!). Até que a luz voltou, tudo deu certo e a cortina fechou. Aplausos, por favor! 


Depois disso tudo, me convenci que não tem escola de línguas melhor do que você se deparar frente a frente com a situação e abraçar a causa (ou o holandês, aí você escolhe). Me diverti muito, sempre. Vai ver as sopas de letrinhas que mamãe me deu quando era criança eram importadas... risos. Pra não dizerem por aí que sou mentirosa, taí a foto do dia fatídico: 


Beijinhos em várias línguas, canções e gestos. Afinal, a comunicação é uma coisa universal.

sexta-feira, maio 18, 2012

Me dê a mão, vamos sair pra ver o Sol



Eu tenho um mundo, um mundo só meu. Um mundo moderno, bonito e cheio de pessoas bacanas. Um mundo com nome e localização: a Mayralândia, no País das Ideias. Fica aqui, bem pertinho de mim.

Ora, se o Calvin pode ter um amigo só dele e a Alice um país maravilhoso só pra ela, por que eu não posso ter um mundo mais fantástico que o do Bobby? E o meu é fantástico e meio. Muito, mas muito mais legal mesmo.

Na Mayralândia não há tempo ruim. O nascer e o pôr-do-sol são os mais sensacionais de todos. Até que o de Brasília, garanto. Lá, não batemos palmas quando o Sol vai embora, isso é coisa do Arpoador. Lá a gente grita "Uhuuu!!! Sol, seu lindo!!". E o Sol sorri e se despede com um tchauzinho. Juro pra vocês.

No meu mundo as pessoas não se magooam, não se ferem, não são cruéis. As pessoas celebram a vida e o amor. Brindam pelas conquistas de cada dia, pelas boas lembranças e histórias que vivem pra contar depois. Na Mayralândia não há rancor, não há ódio nem incompreensão. Há o desejo de ser feliz. Pura e simplesmente.

Nesse mundo que eu criei só pra mim, tem praias, montanhas, cachoeiras, desertos e jardins. E flores nascem todos os dias pra enfeitar a vida de quem se quer bem. As orquídeas enfeitam o dia e as rosas perfumam a noite. Há varandas para serestas e serenatas. Há histórias de amor. Há crianças, adultos e velhos convivendo em harmonia. Há prazer.

Na Mayralândia todos nascem bonitos, simpáticos e já sabendo ler. Os moradores se presenteiam com trechos de bons livros e também oferecem uns aos outros o cantarolar de músicas, que fazem soar aos ouvidos de quem mora lá, as melodias do amor-demais, aquele do Poetinha.

No meu mundo acontecem as melhores baladas e festas que já se ouviu falar. Há sorrisos, registros mágicos e muita, muita cumplicidade no ar. Há sexo, desejo e vontade. Há amor, carinho e afeto. Há casas feitas de doces sem bruxas morando dentro. E sim, existem bruxas, porque sabemos que las hay. Mas são bruxas munidas de vassouras que limpam a sujeira de quem faz mal para o mundo e voam pra bem longe com ela.

Na Mayralândia os acepipes são todos gostosos e suculentos. Há cheiro de gostosuras pelo ar e há travessuras por suas ruas. Lá todos os dias são feriados e também a véspera deles. Não há relógio, não há portas, não há pressa... a não ser a de ser feliz sempre.

No meu mundo eu me fecho quando quero ficar bem e também quando quero me preservar dos males deste nosso mundo real. Lá, sinto o abraço quente de quem gosta de mim, de quem me ama e me quer muito bem. Na Mayralândia não há vazio. Todos os espaços são preenchidos com euforia e vontade de viver. Viajar pra lá é fácil, basta fechar os olhos e sentir. Rapidinho você desembarca e percebe como o Maestro estava errado: é possível sim ser feliz sozinho.

Beijinhos do lado de lá.

terça-feira, maio 15, 2012

Isto merece um brinde!


Nada melhor do que receber recompensas na vida. Escrevo despretensiosamente neste blog, me exponho, me abro, me acabo. Ainda assim, há compensações. 

Hoje fui surpreendida por uma mensagem de um ilustre desconhecido no Facebook que me dizia que tinha "baculejado" o Milk Shake. Não entendi e indaguei o que aquilo significava. Então obtive como resposta: "Só que li teu blog, gostei e resolvi divulgar no meu... Vc escreve muito bem e é muito divertida. Parabéns!". Dei um riso amarelo e fui atrás pra saber o que havia escrito a meu respeito. Delicinha de texto e elogios adoráveis. Mas gostei mesmo foi da perspicácia do rapaz em desconfiar que eu sou hiperativa. Hã? Logo eu que sou tão pacata e discreta?? Hahahahaha. 


Compartilho com vocês a boa surpresa do dia. Aproveitem pra incluir o blog dele (Breique) na lista de vocês, porque vale a pena.

Beijinhos convencidos fazendo tim-tim.

Acho simplesmente adorável quando a vida se apresenta mais surpreendente que arte – por “arte”, entendam tudo de duvidoso que costumo escrever aqui no Breique. Só que para isso é preciso viver intensamente e, ao mesmo tempo, saber enxergar a riqueza em cada gesto, em cada ocasião, de forma a traduzir estas pequenas vastidões em palavras.
Escrever sobre minhaa própria vida nunca foi meu forte, e raramente o faço. Não se trata preservar a intimidade ou qualquer bobagem assim. Minha dificuldade resulta do fato de que sempre achei minha própria vida bem desinteressante. Entendam bem a situação: a vida em si não é desinteressante, mas para falar dela com genialidade é necessário encontrar o ponto forte nas coisas comuns que recheiam os dias.
É exatamente esta epifania que tive quando conheci o alvo do nosso Big Blog Baculejo de hoje, o Milk-Shake, um blog onde Mayra Cunha fala sobre aventuras e acontecimentos de sua vida com um humor calórico de adjetivos e saboroso de criatividade.
É certo que a moça deve ser meio hiperativa para viver tantas aventuras ali descritas, mas sem dúvida é o seu olhar que dá o tom descontraído quando fala do seu aniversário, é a sua interpretação que torna hilária uma história sobre uma carteira encontrada num taxi (e seu dono misterioso), assim como é o seu ângulo de abordagem que nos faz ler de um tiro sua descoberta de que se torna abstêmia em grandes ocasiões alcoólicas – deve ser por isso que nunca nos conhecemos, eu sempre desconfio de quem não bebe…
Está achando pouco? Então beba esta batida: sabe o que é adorar leite e seus colegas derivados, mas ter intolerância à lactose, e ainda por cima se dedicar a escrever um blog chamado justamente Milk-Shake? Para quem é chegado numa ironia assim como eu, isso é o must da modernidade humorística!
E já que o nome do blog é o da tal batidinha de leite com sorvete, Mayra decora sua página com temas de cozinha, outra de suas paixões. Se ficasse só na cozinha já estava bem bão, mas o vai além: está cheio de ilustrações da década de 50, do tipo comercial da General-Electric com aquelas donas de casa american way of life que parecem saídas dos seriados “A feiticeira” e “Jeannie é um Gênio”. Quem não adora?
Jornalista, publicitária e outras coisinhas mais, me parece infrutífero falar sobre a autora quando ela já se apresenta tão eloquentemente; vejamos uma partezinha de Mayra por ela mesma:
“Comecei a falar aos 9 meses de vida e não parei até hoje. Coloco alho e azeite em tudo. Tenho intolerância à lactose mas abstraio. A vida sem queijo fica muito sem graça. Meu estômago não agradece. Gosto de ir passear no Extra e no Pão de Açúcar quando não tenho nada pra fazer, só pra ver o que tem de novo no mercado. Adoro os rótulos e as embalagens. Devo ser mesmo doida. Mas tem gente pior. Acredite.”
Puxa, ainda não te convenci a visitá-la? Quem sabe então você se decida a partir da avaliação do Big Blog Baculejo: Milk Shake é gostoso que nem o nome, divertido como sua autora e hilário como… Intolerância à lactose!

quarta-feira, abril 18, 2012

Constatações de uma vida inquieta


Aí que eu fiz 36 anos há umas duas semanas e encontrei um post deste blog que escrevi no meu aniversário de 29 (isso mesmo, há sete anos, direto do túnel do tempo). Achei divertido postá-lo novamente com as devidas atualizações. Quem teve a oportunidade de lê-lo na época, vai lembrar e perceber o que surgiu de novo. Os mais sensíveis, não se ofendam. Afinal, quem viveu tudo isso fui eu, né? E como vivi!!! =)

Já colei na escola, matei aula, fiquei de recuperação e até calotei ônibus na adolescência;

Já quis fazer História, Letras, Ciências Políticas e até Medicina depois de formada em Comunicação (viram que não rolou, né?);

Já dividi apartamento e morei sozinha por 6 anos. Voltei pra casa por mais 6 e já estou há 3 morando sozinha de novo; 

Já ganhei beijinho do Chico Buarque, os telefones dele e um pedido de "não deixe de me ligar", do próprio;

Já fiz jazz, balé, ginástica olímpica, yoga e natação. Tentei fazer tai chi chuan, capoeira, kung fu e sapateado, mas meu talento não permite tanto. Parei no Pilates;

Já tive 6 namorados e 1 namorido;

Já dei, doei, emprestei, mas nunca aluguei ou vendi;

Já fui metida a hippie, metaleira, comunista e, pasmem!, freqüentadora de exposições agropecuárias na adolescência;

Já entrei com tudo numa elétrica na rua do Beirute, achando que fosse uma garagem, em plena Sexta-Feira Santa, na primeira vez que dirigi um carro e quase destruí a loja;

Já tive catapora, nefrite, rubéola, varizes, hematomas oriundos de falta de equilíbrio, rasguei o queixo três vezes, mas nunca engessei nenhuma parte do corpo;

Já quis me chamar Mayra Cunha Fernandes, Souza, Fonseca, Pitt, Cruise e até Buarque de Holanda;

Já quis morar no Rio, São Paulo, Recife, Paris e Piauí, mas nunca arredei o pé daqui;

Posso tirar onda e dizer que já abracei, dei beijinho e troquei um lero com Morgan Freeman, Bruno Garcia, Luís Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Palhaço Carequinha e até com o Gianechinni (sim, sim, sim);

Já fui amadora, locutora, apresentadora, produtora e raladora. Hoje sou servidora;

Já li Paulo Coelho e Lair Ribeiro (ah, são pérolas da literatura tosca totalmente recomendáveis);

Já pulei cerca, subi muro, trepei em árvore e fui campeã de bolinha de gude e pião na minha quadra;

Já fui pra Ouro Preto ver o Festival de Cultura e Arte da UNE como "carregadora oficial de pratos de bateria" só pra ter uma função e conseguir carona no ônibus da banda que ia se apresentar lá, aos 16 anos;

Já viajei de Fusca de Recife para Brasília, depois de um carnaval, e demorei mais de uma semana pra chegar porque achava divertido acampar na areia de todas as praias do caminho, aos 19;

Já quebrei meu nariz de férias em Barcelona, em plena Copa do Mundo e fui em seguida pra praia e pro show do Kiss;

Já passei cinco carnavais em Olinda e um sem-número no Rio e acho que não paro por aí;

Já me fantasiei de Minie Mouse, de melindrosa e de copo de chope em festas à fantasia;

Já cozinhei mal e cozinhei bem pros amigos e minha família. Já queimei muita panela e também já recebi elogios por receitas que deram certo;

Já beijei mulher e não vi graça nenhuma, continuo achando os homens muito mais legais;

Já quebrei os dois dentes da frente numa queda na noite anterior à comemoração do meu aniversário de 32 anos. E já quebrei um deles também pulando numa piscina depois de algumas cervejas, aos 18;

Já desfilei duas vezes na Sapucaí e vi de perto o Paulinho da Viola vestido de Malandro;

Já pensei em ser espírita, atéia, Hare Krishna, astróloga e me encontrei no budismo;

Já chorei vendo A Noviça Rebelde, quis namorar o Kevin Bacon em Footloose e sonhei ser a Jenniffer Beals em Flashdance;

Já imitei a Madonna num programa de televisão local, cantando Like a Virgin, aos 10 anos (mico? imagina...) e quase me rasguei no meio de emoção ao ver um show da Diva em 2008;

Já falei fluentemente inglês, espanhol, francês, italiano e até japonês depois de algumas cervejas;

Já sofri seqüestro relâmpago e se livraram de mim assim que comecei a falar muito e querer ficar íntima;

Já fui Pato-Pateta na apresentação da escola sobre a A Arca de Noé e o "mato" em A Linda Rosa Juvenil ("...o mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor...", lembra?? e eu lá no fundo vestida numa roupa-que-imitava-grama feita de papel crepom verde, subindo e descendo, abanando as mãozinhas. Praticamente uma precursora da famosa "ôla" dos jogos de futebol).

Já escrevi uma adaptação de Cinderela para o teatro, aos 11 anos de idade, numa máquina de escrever Olivetti que foi do meu avô e que foi encenada na varanda da minha casa;

Já fui vesga, barriguda, desgrenhada e andava com os pés pra dentro que-nem-um-papagaio e acho que até dei uma melhoradinha de lá pra cá;

Já fui, já quis, já fiz, já pensei, já tentei, já larguei, já isso e já aquilo. Agora, no pós-30 estou partindo pro ainda-falta-muita-coisa.

Beijinhos sempre me preparando pro dia de amanhã.

terça-feira, março 27, 2012

Trinta e quantos, mesmo??


No próximo sábado completo 36 anos, ou melhor, 36 outonos, porque eu não nasci na primavera, me desculpem os mais puristas. Uma amiga gaiata me alertou: "Mayra, aproveita esta semana que é a última que você ainda está mais perto dos 30. A partir da semana que vem você estará mais próxima dos 40". Todo mundo tem a sua maneira de ver as coisas, não é mesmo? Eu nunca tinha visto por esse lado.

Ok, estou com 35 anos. É tanta história pra contar, tantas ressacas vividas, tantas farras aproveitadas, tanto choro e riso extravasados. São tantas paixões e desilusões perdidas. Tantos beijos, abraços e afagos. São tantas memórias, tantos brindes, tantas viagens. Tantos micos que paguei e vergonhas que passei. São 35 anos de comemorações de aniversários (nunca deixei de comemorar um só!). São tantos carnavais e festas de ano-novo. Natais com e sem a minha família. Muitas discussões inflamadas em mesas de bar, cantorias desafinadas depois da última saideira, incontáveis "fechamentos" do Beirute. São baladas, shows, filmes, livros, teatros e exposições de arte. Feijoadas, churrascos e cervejadas. Tantos pratos experimentados e panelas queimadas. Tantos elogios e críticas. Perdas e conquistas. Crises de asma, de coluna e de idade. Opa, de idade?? Acho que não.

Ah, eu me sinto bem, vai. Estou num momento de reflexão, de auto-entendimento e de vontade extrema de fazer coisas que nunca fiz! E não, eu não vou contar pra vocês que coisas são essas, tá? Favor não insistir, a gerência agradece.

Ao mesmo tempo me sinto como se tivesse com 18 anos. Tudo bem, tudo bem, sem exageros... vou completar essa idade duas vezes, então isso deve ser algum sinal, né não? Tá bom, é muita cara-de-pau da minha parte. Ou não é?? Será porque cheguei aos 36 sem (ainda) ter casado? Sem (ainda) ter tido filhos? Sou uma eterna adolescente. Ah, sou mesmo. Pergunta pra minha mãe.

O que eu sei é que a idade não está "pesando", mas as vontades estão mudando. Os anseios e medos já não são os mesmos, os planejamentos se transformaram, assim como as prioridades. Pelo menos o bom-humor continua e o jeito sapeca acho que vai conviver comigo até o fim dos meus dias, e que este - espero eu - demore muito ainda pra chegar.

Cá estou, uma mulher de quase 36 anos e que nunca teve problemas em bradar sua idade. Contando os dias do aniversário não pra ficar mais velha, mas pra comemorar como todos os anos, recebendo todo amor e carinho daqueles que sei que gostam de mim. Talvez o tempo tenha me deixado mais melancólica... De acordo com Carlos Heitor Cony, "Nostalgia é saudade do que vivi. Melancolia é saudade do que não vivi". Talvez esteja bem aí o segredo da minha proximidade com os 40. Aguardem que ainda tem muito por vir!

Parabéns e felicidades pra nós. O Maestro já dizia: "É impossível ser feliz sozinho". Será?

Beijinhos sempre aniversariantes.

quarta-feira, março 14, 2012

Diversão a seco


No meu primeiro carnaval pernambucano, nos idos de 1996:

-
Mayra, não come salsichão.
- Ah, me larga!
- Come qualquer coisa na rua, menos salsichão. Depois não diga que não avisei.

É claro que eu não ouvi o conselho do meu amigo e comi. E passei maaal, muito mal. Pus todos os meus bofes pra fora no meu primeiro dia de folia. Tive um piriri que não recomendo a ninguém no meio de Olinda e rezava pra encontrar um banheiro a cada 100m. Pra completar, faltava água na casa que tínhamos como base. Ou seja, eu me lasquei de verde e amarelo (e marrom, né? Urgh!). Ainda tive que passar o resto do carnaval inteiro bebendo água e ouvindo "Eu avisei! Eu te falei!", sem poder dizer nada. Ser teimosa tem dessas coisas. E ter 19 anos também.

Eu tenho um talento natural pra ficar sem beber em eventos onde invariavelmente se bebe, como, por exemplo, Carnaval, Copa do Mundo e no aniversário de 30 anos. Ah, e quando se está de férias na Europa no-meio-da-Copa-do-Mundo também, que é pra ser bem profissional no assunto.

Explico.

Eu inventei de fazer um tratamento pra emagrecer e entrar os 30 gostosona. Perdi seis quilos, dois números no manequim e a graça de viver. Tá, eu não perdi a graça (sem drama, Mayra!). Eu tava linda como pretendia e resolvi fazer uma festa de arromba. Minha mãe comprou garrafas e garrafas de espumante e algumas ostras para brindarmos com a família e os convidados trouxeram verdadeiros carregamentos de cerveja. Eu tomei uma taça de champanhe a noite toda e muita Coca-Cola Light. E ficou por aí. Tudo em nome da silhueta. Eu me diverti horrores, até porque eu sempre me divirto. Mas bora combinar que comemorar aniversário sem brinde perde um pouco a graça? Ainda mais quando se vira balzaca.

No mesmo ano teve a Copa do Mundo (2006) e eu ainda tava nessa de dieta. Nos jogos do Brasil eu bebi Liber (ui!!) a dar com pau, pra ver se entrava no clima da galera. Eu não entrei, é lógico. Gritei, torci e tive até ressaca no dia seguinte. Tá, não tive, mas bem que queria ter tido. Vai ver foi por esse motivo - e somente ele - que o Brasil foi eliminado. Ahã. O que eu sei é que cerveja sem álcool faz a gente ir mais ao banheiro do que a normal. E empapuça na terceira latinha. Eca!

E lá fui eu pra Europa comemorar 30 anos de amizade com uma amiga, em 2010. O bacana da nossa viagem é que era mais uma Copa do Mundo onde veríamos cada jogo do Brasil em uma cidade diferente. E eu já fui no avião falando: "Putz, esse ano eu bebo na Copa, porque na passada eu tava abstêmia, de dieta!". Aí a maluca aqui vai e se estabaca no chão em Barcelona e quebra o nariz, como muitos de vocês já sabem. O resultado? Cinco dias no anti-inflamatório e dois jogos do Brasil (e vários outros de times europeus) a seco. A sorte é que na Espanha você encontra cerveja sem álcool que preste, na pressão, em qualquer bar. Isso foi a redenção. Nem lembrei da ferida na cara e segui me divertindo, como sempre.

É fato que eu não perco a pose nem o programa, com ou sem álcool. Mas o curioso da questão é estar em eventos emblemáticos sem beber. Isso sim, dá raiva, não vou mentir. Mas sabem que eu já estou me acostumando? Este ano entrei de dieta de novo e reduzi os drinques, pra variar. Meu aniversário tá chegando e devo beber muito pouco pra não recuperar os quase quatro quilos que já se foram. Mas é claro que eu vou querer fazer tim-tim com as pessoas queridas pra comemorar, né? ? Afinal, eu vim ao mundo a passeio e o que é que as pessoas fazem quando estão passeando, hein, hein?

Beijinhos sóbrios.

quarta-feira, março 07, 2012

Maldita Crise de Abstinência



Eu tenho sonhado com coisas que eu não posso comer. Não estou falando de caviar, escargots ou do Brad Pitt. Tô falando mesmo é de Yakult no café da manhã, fatias de queijo prato cobertas com geléia de morango (sabor de infância) e um copão de Nescau gelado vendo televisão. Coisas simples assim.

Ter intolerância à lactose é uma merda, com o perdão da palavra. Mas eu não me canso de reclamar. Na verdade, ser intolerante é um inferno! Faz da gente um ser infeliz e invejoso. Se eu tivesse nascido com isso, seria mais conformada, pois não teria aproveitado 28 anos (eu disse vi-te-e-oi-to anos) da minha vida comendo de tudo que deriva do leite e achado tudo (muito) bom. Há sete anos padeço dessa "enfermidade" e sofro reclamando. Acho, sinceramente, que deveriam existir clínicas de reabilitação para pessoas como eu. Porque quando a crise de abstinência bate, eu sou capaz de comer uma bandeja de mussarela ou uma lata de leite condensado pra compensar. Só não faço porque eu sou doida mas não desse tanto.

Eu sou é um ser bem teimoso, viu. Muitas vezes chuto o balde e como mesmo sabendo que vou passar mal e colocar tudo pra fora. O pior é que à medida que o tempo tá passando, parece que minha intolerância está piorando. Talvez seja justamente por conta dessa teimosia. Antes eu não era tão dependente das "cápsulas da felicidade" (como chamo as pílulas de lactase) pra poder digerir algo com leite e hoje preciso tomar pra tudo, às vezes duas de uma vez só pra não "devolver" o alimento.

Agora para aí pra pensar num ser que cresceu tomando leite "mugido", que vinha da fazenda em galões enormes. Uma pessoa que comia queijo fabricado nessa mesma fazenda. Uma adolescente que acordava no final de semana na roça às 6h da manhã e seguia pro curral com uma caneca com Nescau pra pôr direto na teta da vaca. Pois é. Se Deus escolheu castigar alguém, fui eu. Ou esse excesso todo de leite na minha vida me tornou intolerante ou eu estou pagando algum pecado muito cabeludo.

Pra completar, eu adoro molhos à base de queijo, iogurte ou creme de leite e preciso ficar me policiando pra não fazê-los sempre que vou pra cozinha. Há quem vire pra mim e diga: "Reclama não que podia ser pior, poderia ser camarão ou glúten". Olha... eu não sei você, mas eu não costumo comer frutos do mar no café da manhã, já pão sim. Portanto, posso até concordar com o glúten (até porque, minha gente, tem na cerveja, né?), mas daí a dizerem que não posso reclamar... me desculpem, mas sim, eu posso.

Se você quiser entender o motivo, experimenta cortar o leite e todos os seus derivados por uma semana. Eu disse todos. Nem digo um mês senão você corre o risco de morrer de inanição. Sério mesmo. Eu dei um chilique no médico quando o resultado dos exames acusou a intolerância. Chorei ao me dar conta de que não haveria mais Toddynho no meu lanche do trabalho, nem iogurte light no café da manhã. Quis quebrar tudo quando fui pra França pela primeira vez, a "terra dos queijos", e passei mal praticamente todos os dias porque não abri mão de experimentar o que passasse na minha frente. Quis morrer quando lembrei que eu ODEIO tofu (aquilo é tudo, menos queijo, bora combinar?).

Agora me fala, você é cabra macho? Mulher forte? Então faz o que eu tô dizendo: corta tudo isso na sua vida por um tempo e depois me diz se não não morreu de tristeza. É que nem o retrovisor direito do carro: você só se dá conta de que faz muita falta quando fica sem. A diferença é que sem ele você não vomita, né? Se você encarar meu desafio, com certeza vai parar de dizer por aí que eu reclamo à toa.

Beijinhos sabor queijo de cabra.