sexta-feira, maio 06, 2011

Envelhecer é perder amigos


Aviso logo: este não é um post divertido. E digo também: essa história de perder pessoas não é legal. Não mesmo. Eu queria saber porque desde que eu me entendo por gente se diz que o brasileiro não é educado culturalmente pra entender a morte e ninguém faz nada pra mudar isso. Hello? Os orientais e os mexicanos estão aí pra nos ensinar algumas coisinhas. Vamos tentar aprender com eles?

No último mês duas pessoas muito queridas se foram: um colega de trabalho e um dos melhores amigos do meu irmão, que eu via em casa desde que eram moleques. E quer saber? Doeu. E ainda dói. E a dor vem por vários motivos. É a revolta por terem morrido cedo (36 e 27 anos, respectivamente). É a impotência de não poder fazer nada pra mudar isso. É a raiva de uma doença diabólica como o câncer, que ninguém consegue prevenir ou dar jeito depois que ela chega e toma conta. É a esperança perdida depois de um traumatismo craniano causado por um acidente de carro bobo, razão de uma imprudência. É a sensação de querer voltar no tempo pra rever os sorrisos deles e dar um último abraço e ter que engolir seco a triste realidade.

No meu trabalho o clima entre os que conheciam nosso amigo foi o pior de todos. Comoção geral. Em casa, um irmão está com o coração despedaçado com sua primeira perda de verdade. E eu queria poder fazer alguma coisa além de sentir uma dor profunda e muita vontade de chorar quando revejo fotos ou se toca no assunto. Só posso dar meu alento.

É necessário saber lidar com a morte. É importante tentar entender como tudo isso acontece e que a vida segue, por piores que sejam as circunstâncias. É difícil controlar os sentimentos e a dor que toma conta da gente. Esses acontecimentos tristes me fizeram lembrar de uma aula de literatura em que o professor explicava a frase célebre de Fernando Pessoa: "Navegar é preciso, viver não é preciso". Nada mais impreciso que a vida. Nada mais complicado de se definir, criar regras e conduzir do que o ato de viver. E é por isso que a gente deve aprender a dizer o que o coração sente, abraçar quem a gente ama, transmitir e mostrar todo o carinho e amor que a gente sente pelas pessoas queridas. Ao menos nos dá a sensação de que elas foram em paz sabendo que não passaram por aqui em vão.

Infelizmente, eu não tive tempo de fazer isso com essas duas novas estrelinhas que estão no céu. Mas esses momentos fazem a gente refletir e ter vontade de mudar alguma coisa, nem que seja a forma de sofrer e de dar amparo aos que ficam.

Como dizia um conhecido que também já se foi: "Envelhecer é perder amigos". Uma pena que isso seja uma verdade tão dura de se aceitar.

Beijinhos consternados pra vocês. Sintam-se todos abraçados e beijados por mim hoje.

sexta-feira, abril 15, 2011

Recordar é REviver!


Quem nunca teve uma crise de nostalgia na vida que atire a primeira pedra. Eu atiraria várias. Vivo relembrando saudosa as coisas do passado. E não, eu não acho que quem vive de passado é museu, principalmente quando essas lembranças te trazem um sorriso besta na cara. Recordar é viver, já dizia o poeta.

Dias atrás reencontrei amigas de infância/adolescência para um vinhozinho no meu cafofo. Relembramos algumas coisas e no dia seguinte fiquei com aquela época boa na cabeça. E então vieram muitas e muitas lembranças de coisas vividas que os tempos não trazem mais (piegas mas é verdade). E como foi gostoso crescer em Brasília nas décadas de 80 e 90! Quando eu menos esperava, vinha um momento, um lugar, um episódio na minha memória. E então resolvi listar algumas dessas recordações pra reler quando as coisas estiverem tensas e então poder pensar como eu sempre fui feliz e que a vida é isso aí mesmo. Bola pra frente!

Lembrei da SAB, os supermercados do governo das entrequadras, onde eu ia ajudando a babá a empurar o carrinho de compras. E onde eu comprava meus ovos de páscoa.

Eu morava na 205 norte, aquela quadra do comércio mais tosco de Brasília. Adóravamos brincar de pique-esconde ali e corríamos pra casa quando um homem desconhecido se aproximava. Sempre uma de nós gritava "taraaaaaado" e todo mundo abria o gás no rumo do prédio. Era muito engraçado. E nem se falava tanto em pedofilia nessa época. Nesse mesmo comércio havia uma vendinha cujo dono, um senhor careca, nos vendia Baré Cola e Tutti Frutti pra gente tomar debaixo do bloco. E era lá que eu trocava as tampinhas de Coca-Cola pelo mini engradado.

E quando chovia? Esperávamos passar e então descíamos todos para escorregar na água que se acumulava no chão do prédio. Detalhe que o meu tinha o piso preto e voltávamos pra casa com os joelhos vermelhos do atrito e preto da cera.

E descer pra brincar com a turma? Combinar de ir comer crepe de banana - o Macaquito - no Truc's ou ir ao Cine Márcia, no Conjunto Nacional pra ver De Volta Para o Futuro ou Os Goonies. Também fomos ver a Boneca Eva, aquele passeio pelo corpo humano, no Parkshopping. Passávamos a semana combinando qual pai levaria e buscaria a gente pra matinê da Zoom, no Gilberto. Na noite do cometa Halley, sentamos na caixa do telefone (carinhosamente chamada por nós de "O Telefone") e ficamos até tarde esperando ele passar. Uns juram que viram. Nós meninas queríamos mesmo era ficar com a cabeça no colo dos meninos, com a desculpa de que estávamos olhando pro céu. Ahã.

Quando o vendedor de quebra-queixo passava com sua voz vibrante, gritando "quebra-queeeeeeeeeeeixô" debaixo da minha janela, eu não hesitava em descer pra comprar o meu. Ainda existe isso? Eu comeria um quebra-queixo hoje feliz.

Nessa época em Brasília existia uma rede de distribuidoras de doces chamada Campineira. Pra minha sorte, tinha uma loja pertinho da minha quadra. A gente desobedecia os pais, que nos proibiam de atravessar o Eixão, e íamos gastar a mesada lá, comprando caixas e caixas lacradas de Lollo, Sugus e pirulito do Zorro. Aos finais de semana, meus pais me levavam pra almoçar numa cantina italiana chamada Papardelle, em que os garçons distribuíam tampas de panelas pros clientes pra gente bater ao som da Tarantella. Um barulho dos infernos e uma alegria italiana que nós crianças adorávamos.

Na adolescência, íamos de ônibus ao Gran Circo Lar, ao lado da Rodoviária, ver shows legais de bandas da cidade que aconteciam por lá. Não me perdôo até hoje de ter perdido o Mano Negra quando veio ao Brasil. Subíamos a pé pra 104 norte pra ir também ao Bar Canal, botequinho que bombava de gente bacana pra ver os amigos tocarem com suas bandinhas e jogar conversa fora. De quebra, arrematar com o melhor cachorro-quente da cidade, que existe até hoje na mesma quadra.

Aos domingos a gente se juntava e ia pra Cultura Inglesa ou ao Cine Brasília, ver o filme cabeça que estivesse passando. Vi alguns filmes memoráveis lá, como Smoke/Don't Smoke do Alain Resnais e Os Amantes da Pont-Neuf, de Leos Carax. Faz falta na capital federal não existir mais um cinema de arte.

As lembranças não acabam. À medida que vou escrevendo, vão surgindo novas e novas. Pra não deixar este texto parecido com um tratado, entrego a vocês a incubência de me ajudarem a lembrar de coisas gostosas da infância. Vamos lá, atirem a primeira pedra!!

Beijinhos saudosos.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Que estouro! Que beleza de carrinho!


Sabe aquele brinquedo que você sempre quis e nunca teve? Tipo um Autoramas todo cheio-de-nove-horas e o máximo que seus pais te davam - e que podiam dar - era um carrinho de fricção pra você se virar como podia? Ou então aquela Barbie toda fresca e cheia de modelitos recém-lançada e que você tinha que se contentar com uma Suzy modelo basiquinho, solteirona, porque não rolava grana nem pra comprar um Ken, mesmo que genérico?

Pois é. Aí você vai crescendo e - pasme! - seus pais também. Quero dizer, eles prosperam, melhoram de vida e começam a fazer upgrades nos seus brinquedos. E então você ganha um super Ferrorama ou uma Barbie Lady-Gaga over-power-plus e fica se sentindo a pessoa mais importante do universo. É assim que eu estou me sentindo. A pessoa que passou de uma Suzy pra uma Barbie by Jean Paul Gautier. Explico em poucoas palavras: troquei de carro. Rá!

A diferença todas nas comparações acima é que não foram meus pais que puderam comprar, fui eu, o que deixa tudo muito mais interessante. E eu resolvi me dar um presente de gente grande. Decidi que precisava ter meu primeiro carro zero, meu primeiro carro com ar-condicionado, meu primeiro carro com direção hidráulica. Ou seja, meu primeiro carro de adulto. Aquele carro que você diz "quando eu tiver família vou ter um". Não constituí família ainda, mas e daí? Só sei que eu arregacei, botei pra quebrar.

No Piauí existe uma expressão que eu adoro: "desmantelo só presta se for grande". Quer dizer, mais ou menos, que se for pra fazer um estrago, que faça um estrago de responsa, um estrago pra ninguém botar defeito. O meu desmantelo foi passar de um carro mil (ou melhor, "sem") pra um carro "com".

Nunca dei a mínima pra carros. Pelo contrário, usei os meus até se acabarem sem me preocupar com o último modelo ou tempo limite de revenda. Meu dinheiro nunca foi direcionado pra isso. Portanto, eu abri uma concessão em causa própria. E estou feliz da vida. Meu carro novo, como toda conquista (inclusive a de quando comprei meu primeiro usadinho 1.0 show-de-bola) é lindo de morrer. No momento, o carro mais bonito do mundo. Tô querendo morar dentro, inclusive. Só não o faço porque meu cafofo tem o seu valor. Comprei um top de linha que tive até medo de dirigir quando tirei da concessionária. Juro pra vocês.

Ao receber meu novo carango, eu parecia aquela criança que tava indo escolher seu primeiro videogame e que quicava de alegria na loja. O vendedor tava vendo uma moleca e não parava de rir da minha empolgação. Levei minha fiel escudeira comigo pra conter meus impulsos. Então o vendedor vem me explicar, tintim por tintim, cada botão, compartimento ou acessório. Eu não deixava por menos. Nem ela.

Abrindo o porta-malas:
Vendedor: Aqui a senhorita vê que tem uma redinha de proteção pra carregar...
Eu (interrompendo o moço): Olha amiga!!! Vem lugar pra levar as crianças com segurança!! Que bacana essa redinha pra elas não irem sambando de um lado pro outro enquanto eu faço as curvas. Esses koreanos pensam em tudo mesmo. Que danadinhos.
Fiel Escudeira: Gente!! E tem puxadores pra elas fecharem a porta do porta-malas por dentro! Genial. Dá independência, né? Bacana mesmo.

Vendedor (rindo torto, sem saber se falávamos sério ou não, mostrando mil porta-trecos e o porta-luvas): Este compartimento é refrigerado. A senhorita pode colocar um refrigerante ou um suco que ele mantém geladinho...
Fiel Escudeira (interrompendo o vendedor): Refrigerante?? Meu bem, você acha que minha amiga se rasgou no meio pra comprar esse carro pra ter um porta-luvas refrigerado e levar suquinho?? Vai levar cer-ve-ja. Cerveja, ouviu bem? (E me dá uma piscadinha).

Então o vendedor me diz: Você escolheu uma placa fácil. Esses números te dizem alguma coisa? Têm algum significado pra você?
Fiel Escudeira (me interrompendo): É pra ela lembrar rápido quando for parada numa blitz bêbada e precisar falar pro guarda.
Vendedor: Vocês estão me assustando!!! (E riu).
Eu: Assustado você vai ficar quando eu tirar ele daqui. Eu só preciso aprender a dirigir antes. Ou o senhor acha que eu sei lidar com carro automático???

Depois dessa, me entregou as chaves, me disse um bom "Até breve e boa sorte" e lá fui eu feliz e contente pra casa mostrar meu novo mimo pra família orgulhosa. E sem deixar o carro engasgar nenhuma vez. Agora eu só tô pensando que preciso arrumar uma utilidade pra minha perna esquerda e pro meu braço direito, já que não piso mais na embreagem nem passo marchas. Acho que vou começar a fumar. Hahahahaha.

O melhor de tudo é poder encher o peito e dizer: "fi-lo porque qui-lo"!! É meu e eu mereço. Ah, se mereço. E sim, eu estou tirando onda. Porque não sei quando vou poder fazer isso de novo tão cedo, tá?

Beijinhos de quem tá em lua-de-mel com seu veículo novo e que não tira o dedo do botão do ar-condicionado quando entra nele.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Doida demais!


A verdade é que eu sou uma pessoa muito doida.

Sou doida por esta cidade linda onde eu nasci e cresci.

Sou doida pelos meus amigos, que nunca me faltam, mesmo quando me decepcionam ou me magoam. Sou doida por eles mesmo assim.

Sou doida pela minha família, que tem uma árvore genealógica totalmente sem sentido e que todo mundo se diverte com toda a confusão existente nela.

Sou doida pelos meus irmãos, todos eles, sem tirar nem pôr. Os de sangue e os agregados.

Sou doida pela minha avó, segunda mãe, e sua personalidade ímpar que faz o mundo inteiro girar em torno dela.

Sou doida pelo meu cafofo, meu cantinho, meu castelo. O lugar onde esqueço do mundo e me escondo pra rir e chorar sozinha.

Sou doida pelo meu trabalho, pelo que faço e pela profissão que escolhi pra mim. Devo ser doida mesmo por ter optado pelo jornalismo. Uma arte pra doidos.

Sou doida por cinema, por literatura e por arte. Sou doida por tudo o que há de bom nessa vida e que pode me dar prazer.

Sou doida pelos lugares do mundo. Viajar e desbravar lugares bacanas.

Sou doida pra ganhar na Mega-Sena também. Pra conseguir fazer as viagens que me dão vontade na hora que me dá vontade.

Sou doida por culinária. Cozinhar, comer, degustar, beber. Oferecer aos amigos, fazê-los de cobaias, receber em casa. Ficar ansiosa pelo feedback do sabor que eu invento naquelas panelas.

Sou doida pela vida. E cada vez mais consciente de que a cada ano que passa fico mais doida ainda por tudo isso.

2010 foi um ano bom. Menos doido do que eu gostaria e um pouco mais doido do que talvez deveria. E 2011 espero continuar essa pessoa completamente doida pra viver e ser feliz.

Com um pouquinho de atraso - típico dos doidos como eu - um feliz Ano Novo pra você!

Beijinhos doidos demais!

sexta-feira, novembro 05, 2010

Se aquele Fusca falasse...


Eu tinha 19 anos quando fui passar meu primeiro carnaval em Olinda. Todos os meus amigos se mandaram antes e eu fiquei pra ir depois porque tinha prova de seleção da UnB. Peguei um ônibus Brasília-Recife sozinha e me taquei pro Pernambuco em 36 horas de viagem. Meus pais, óbvio, ficaram apreensivos, mas nada que os surpreendessem tanto, uma vez que eu já tinha feito algumas vezes a viagem por terra para o Piauí. Eu já me sentia super experiente, claro.

Foi um dos melhores carnavais da minha vida. Encontrei meus amigos, conheci uma terra que adotei de coração, recebi a notícia da aprovação no curso de Comunicação da UnB e ainda fui badalar em Porto de Galinhas. Coisa demais pra quem só pensava em curtir uns dias de folia.

Certo dia, um dos amigos me procura afoito:

- Mayra, você tá com passagem de ônibus de volta comprada, não tá? Pra quando?
- Pro dia tal. Por que?
- Me ligaram do trabalho e preciso voltar às pressas e não tem mais passagem pra vender pro dia que preciso. Eu vim de carro com os amigos. Me vende? Você volta no meu lugar.

Sem perguntar muita coisa, completamente desencanada e na pilha de ajudar um brother, topei. Só não perguntei direito quando e como voltaríamos pra Brasília. Feita a boa ação, descubro que a minha vaga era num Fusca. Rá! Por essa vocês não esperavam, né? Nem eu.

Aí eu te digo: foi uma das viagens mais divertidas que já fiz. O "Fucão" deu no couro direitinho e não deu problema nenhum no trajeto. Eu e mais dois amigos, uma barraca guardada no capô-bagageiro e algum dinheiro no bolso. Ah, cabe ressaltar, pouquíssima pressa e quase nenhum compromisso de chegar em casa também. Benditas férias escolares. Bom dizer ainda que eu não tinha carteira de motorista nessa época e que minha única função era dormir no banco de trás ou puxar conversa com o motorista da vez pra que ele não cochilasse. Eficiência pura, rapaz.

Demoramos uma semana e meia pra chegar em Brasília. Oi? Isso mesmo. Saindo de Recife, a primeira parada foi em Maceió. Encontramos um cantinho na Praia de Pajuçara, armamos a barraca na areia e nos aboletamos por alguns dias. Baladas, botecos e muito sol. Depois pegamos o Fusca e seguimos pra Aracaju. A primeira impressão não foi das melhores da capital sergipana. Rolou um choque-Photoshop: o marrom do mar não se comparava ao azul do litoral alagoano. A pessoa fica exigente depois que vira viajante profissional.

E por acaso era aniversário do meu pai. Resolvi ligar pra dar os parabéns:

- Oi pai, feliz aniversário! Tô em Aracaju.
- Aracaju? Mas tem quantos dias que você tá viajando de carro pra Brasília? Já não devia estar chegando?
- Ah, uns 5 dias. Devo chegar em uma semana, eu acho.
- Uma semana, Mayra?? Por que isso tudo? Tá vindo de Fusca por acaso, é? Hahahahaha. (se achando "o piadista")
- Pois é... tô.
- (Silêncio)... Tú-tú-tú-tú-tú-tú-tú-tú-tú...
- (Pensamento) Acho que matei meu pai...

Não, eu não tinha dado muitos detalhes da minha volta. Só avisei o essencial. Pra quê causar pânico, néam? Viagem tranquila, carro bacana, companhia excelente. Qual o problema?? Poucos dias depois falo com mamãe que me avisa que meu progenitor está arrancando os cabelos de preocupação e que liga todo dia pra ela pra saber se eu já cheguei ou dei notícias. Bons tempos aqueles em que não tínhamos celular...

Depois de Aracaju o destino foi Lençóis, na Bahia. Foi paixão à primeira vista! Passeios pela Chapada Diamantina e a descoberta de lugarzinhos incríveis na pequena cidade histórica. Quase abandonamos tudo pra morar lá de vez, num surto meio hippie de ser. Mas todos tínhamos - inclusive eu! Uhuuu! - a UnB nos esperando. O negócio era crescer na vida pra depois comprar uma casa praquelas bandas. Quando se tem 19 anos os planos não têm limite. Aos 30 também não, mas tudo bem.

Cheguei sã e salva em Brasília. Um pouco moída, mas cheguei. Afinal, nem meus 1,58m aguentaram tantos dias dormindo no banco de trás de um Fusca ou dividindo uma barraca Iglu com mais duas pessoas. Ah, não tinha contado que a barraca era pra duas pessoas? Detalhe sem muita importância... Cheguei cheia de histórias pra contar na bagagem, bronzeadíssima e com um pai com alguns cabelos brancos a mais. Achei que eles tinham aprendido como a filha é quando fui, aos 16 anos, de carona num ônibus de estudantes da Música da UnB, pra um encontro da UNE em Ouro Preto. Mas não. O que eu entendi é que eles não vão aprender nunca a conviver com o surto e "insubordinação" (adoro essa palavra!) dos filhos. Talvez eu entenda isso quando tiver os meus.

E essa história toda veio parar aqui porque ontem, indo trabalhar, um Fusca igualzinho àquele vinha ao meu lado no caminho. Ah, as lembranças... as boas lembranças. E a certeza de que só encaro essa viagem de novo num 2.0 com ar-condicionado e hospedagem num hotel limpinho e confortável.

Beijinhos de quem acha que já criou algum juízo depois que fez 30 anos. Ahã.

quinta-feira, outubro 28, 2010

Não vejo o menor pgoblema!


Eu nunca tive problemas pra falar. Pelo contrário. Comecei a falar aos nove meses de vida (e não parei até hoje, admito) e sempre tive a pronúncia e dicção perfeitas, modéstia à parte. Com os anos eu percebia que muitas pessoas a minha volta não diziam certas palavras com clareza e comecei a prestar a atenção nisso. E foi a tal da língua presa que sempre me impressionou. Ou melhor, língua pguesa.

Tenho primos, amigos e já tive namorado com língua pguesa. E sempre achei bonitinho. Nunca me incomodou. Engraçado é quando eles mesmos começam a se auto-sacanear e aí não tem jeito, o negócio é rir.

Outro dia, conversando no MSN com um amigo com quem tenho tido pouco contato real e nossas conversas têm se restringido ao mundo virtual, percebi que o diálogo escrito começou a se dar assim:

- E aí, vamos lá na Corrida da Cerveja?
- Vamos sim. Que hogas você pguetende chegar lá?
- Hã? Vou tomar um banho e sair. E você?
- Ah, vou tomar um banho também e ligar pgo Andgué que vai comigo.
- Her... beleza. A gente se acha por lá então. Tá levando o celular?
- Tô sim. Vai ser tganquilo da gente se achar. Qualquer coisa, eu te ligo, Mayga.

Agora você imagine a minha cara na frente do computador tentando adivinhar que ele tava escrevendo tal-qual o jeito que ele fala!!! E eu confesso que nunca tinha me dado conta de que ele tinha a língua pguesa de verdade. E nem que meu nome era difícil pra quem tem essa dificuldade. Caí numa gargalhada sem fim. Adoro amigos espirituosos.

E aí tô conversando com uma amiga sobre isso outro dia e ela me diz que a vida "inteiga" ela teve a língua pguesa. Oi? Como assim? Descobri em mim uma grande falta de talento: perceber esse detalhe nas pessoas. Então ela me explica que fez tratamento com fonoaudióloga durante muitos anos e que hoje a coisa só bate mesmo quando ela bebe. Só que quando ela bebe, eu bebo também. Aí a gente fala tudo a mesma língua e fica tudo bem. Ainda assim, digo pra vocês... eu nunca percebi!

Anos atrás, a campanha publicitária pro carnaval de uma dessas cervejas fazia o personagem tomar um gole e dizer: "Que magavilha!". A coisa pegou d'um tanto que passamos o carnaval inteirinho no Rio de Janeiro nos comunicando assim.

- E aí, vamos almoçar onde?
- Em Santa Tegueza, no Sobgenatugal, um restaugante ótimo de fgutos do mar. Uma magavilha!
- Ótimo. Já avisaram pga galega?
- Já. Eles vão pegar o metgô pga vir encontgar a gente e irmos todos de bonde.

Pensa aí que loucura. No meio dessa turma, uma amiga, das mais empolgadas com o novo dialeto, morava numa certa cidade litorânea...

- Onde é que você tá modgando agoga?
- Em Guagapagui, no Espíguito Santo.

Precisa falar mais nada, né? E assim todo mundo se entendia. Que nem a língua do P quando éramos crianças. Só sei que eu acho língua pgesa num charminho, juro. E dependendo da língua, eu até me proponho a ensinar a dar umas aulinhas... Hahahahaha.

Beijinhos de quem sempre conseguiu falar o próprio nome direitinho.

terça-feira, outubro 19, 2010

Da Idade Média aos anos 80 em um beijo



Você se lembra do seu primeiro beijo? Lembra do gosto dele? De como você se sentiu? Lembra-se do frio na barriga cheio de incertezas que tomou conta de você naquele momento?

Pois é. Esses dias, calma e tranquila lendo no conforto do meu lar, fui arrebatada, do nada, por essa lembrança. Mas não foi qualquer lembrança. Eu lia sobre arte na Idade Média pro mestrado e de repente eu senti na boca o gosto do meu primeiro beijo. Foi uma coisa assim tão forte que me desconcentrou. Entendi nada. Saí do Renascimento pra década perdida num pulo. E aí parei pra pensar...

O meu primeiro beijo não foi o mais sensacional do mundo (o de alguém foi?). Primeiro que a gente não sabe o que fazer direito na hora, por mais que ensaie com a língua no antebraço trancada no banheiro (vai dizer que não conhecia essa?). Eu tinha 14 anos e fui pega de surpresa num baile de carnaval. Primeiro... o susto! Depois... a entrega. Quando a ficha cai você nem consegue curtir o momento porque só fica pensando "meu Deus, eu tô beijando!!!!". E é estranho, muito estranho. Ao mesmo tempo em que rola um frisson bacana de estar pulando uma etapa, vem aquela sensação de "eca, como ele baba!".

Na adolescência eu só tinha amigas mais velhas. Por isso, fui uma das últimas a fazer todas as coisas que hoje a gente chama de ritos de passagem. Menstruei, beijei e transei pela primeira vez - necessariamente nessa ordem - depois de todo mundo que me cercava. Ou seja, quando aparecia empolgadíssima pra contar a novidade, elas já estavam voltando com o pão e eu lá indo com o trigo na mão, jurando amizade.

Mas vamos voltar ao meu flashback da semana passada. Eu realmente senti na boca o gosto do meu primeiro beijo, juro pra você. A barriga não gelou e eu nem fiquei de pernas bambas. O que achei engraçado foi a identificação do negócio, o reconhecimento do sabor e, principalmente, a lembrança daquele carnaval. Eu lá, sentada num canto vendo a coroada dançar marchinhas de carnaval e então ele, o bofinho, o garoto que eu sempre olhava, apareceu e pegou na minha mão. Falou pouco, puxou meu rosto e pá!, me agarrou. Sem muito romantismo mesmo. Assim, de supetão. Eu já devia suspeitar que não seria muito diferente disso daí pra frente.

Só que eu tava falando do dia que eu lia sobre Idade Média pro mestrado e que senti o gosto do primeiro beijo no meio da minha sala, de repente. Vejam, eu estava na sala da minha casa. E senti uma saudade daquele dia, daquele clube, daquela inocência, daquele sustinho gostoso. Senti saudade daquela época em que a gente não fazia planos, não criava expectativas e simplesmente esperava alguém largar a vassoura na festa pra te puxar pra dançar quando a voz estridente da Kate Bush anunciava "Wuthering Heights" na vitrola da festinha. E que num leve esfregar nas suas costas e um abraço mais apertado você já travava e pensava "hoje vai rolar, hoje eu desencalho". Aquela inexperiência de ambas as partes, das festinhas descompromissadas, dos garotos que a gente queria que aparecessem e de quando vestíamos nossas saias balonês e usávamos gel New Wave com glitter no cabelo pra arrasar geral.

Senti saudade pela primeira vez, depois de muito tempo, dos anos 80. Daquele período-totalmente-brega e divertido da minha transição de menina pra garota. Do desconforto de lidar com a transformação do meu corpo. Da ansiedade de estar com a cabeça deitada no colo do menino que eu gostava e que nem me dava bola - só pensava em jogar béti e me via como menina só na hora da brincadeira da Salada Mista - pra ver o Cometa Halley passar .

E então eu olhei de novo praquele texto sobre arte medieval, olhei à minha volta e vi a Mayra adulta, a menina que cresceu. O gosto na boca foi embora, ficou a lembrança boa e então eu me servi de uma taça de vinho e brindei sozinha às minhas recordações.

Morar sozinha às vezes dá nisso. E não é que é bom demais crescer e poder lembrar disso de vez em quando?

Beijinhos nostálgicos, com sabor de Baré Tutti-Fruti e do meu primeiro beijo.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Pega na mentira!


Desconfio seriamente de que as pessoas andam mentindo pra mim. E eu não gosto de mentiras. É duro isso, muito duro. É feio ver gente inventando história só pra você acreditar e ficar com inveja.

Por exemplo, que papo é esse de que choveu em Brasília depois de 125 dias de pura seca e calor insano? Não, não choveu. Eu, pelo menos, não vi. E não me venha dizer que caiu um toró daqueles na sua casa certa madrugada. Não caiu. Entendeu? Porque essas chuvas que as pessoas andam inventando por aí teriam dado o ar da graça (viram como eu não acredito mesmo nisso?) quando eu estava dentro do Senado ou dormindo. E não choveu na minha cabeça nem no pára-brisa do meu carro em nenhum momento, digo pra vocês. Portanto, não choveu.

Não satisfeitos em inventar uma chuva pra acalmar os ânimos e dar uma falsa esperança a pessoas como eu, que não aguentam mais o calor, vieram dizer também que choveu granizo outro dia. Não me venham com essa. Aqui na minha terra não caiu gelinho nenhum. Nenhum mesmo. Garanto. E acho de um mau gosto terrível dizerem isso pra mim. Tô aqui numa secura louca (sem trocadilhos, por favor!) e fulano vem contar esmola na minha frente? Onde já se viu? Granizo é mito, não cai em Brasília há muito tempo. E não adianta insistir porque eu sei das coisas.

Então neguinho vira e me diz que presenciou uma tempestade de poeira no Distrito Federal. Hello-ôu? Querem me convencer agora de que rolou uma tempestade em Brasília? Se não chove nem água, como vou acreditar que rolou isso? Ah, fala sério, né? Não aconteceu. Nem de poeira nem de nada. Eu não vi e se não vi, não existiu. Sou tal e qual São Tomé, só acredito vendo. E não adianta me mandar ler o jornal. Jornais também mentem, sabiam?

Enquanto eu ainda tentava procurar pessoas confiáveis neste mundo, buscar um fiapo de esperança, vem a bomba, a mentira-mór, a pior de todas e mais impossível de se acreditar: Brasília tremeu. Ah! Peraí, né? Apela não, meu velho. Terremoto em pleno Planalto Central? Conta outra porque essa foi demais pra mim e eu tô rindo até agora dessa balela. Estava eu linda e contente na UnB assistindo à minha primeira aula como mestranda e ao chegar em casa escutei essa conversa fiada. No way. Vai enganar outro, seu Pinóquio. A única tremida que eu senti foi ao ver aquele gatinho que eu tô interessada passar outro dia na minha frente e falar comigo. E só. Tremida bem boa, por sinal.

Perdi a fé no mundo. Perdi a esperança de acreditar nas pessoas. Até meu pai e minha mãe endossaram todas essas histórias. E o meu irmão!!! Vejam só. Tudo lenda urbana, digo pra vocês. Nada disso aconteceu, porque eu não vi. E se isso tudo for realmente verdade, eu sou o própro anti-Forrest Gump. Uma coisa meio assim... "cadê eu"? Oncotava? Poncoía? Poncofui? Será que tomei a pílula vermelha do Matrix e não me lembro?

Ah, já sei, tava ali esperando o disco voador que, segundo também me contaram, vai pousar no vulcão que fica na beira do Lago Paranoá. Porque ouvi dizer, inclusive, que ele tá pra entrar em erupção a qualquer momento. Ahã. É só o que tá faltando, néam?

Beijinhos incrédulos e com muita raiva de ter perdido tudo isso.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Entre papagaios, escritores e um mestrado


Naqueles tempos em que o Ibama permitia que tivéssemos animais silvestres em casa, eu criava um casal de papagaios. Vim descobrir anos depois que se tratavam de dois machos, o que explicou viverem mais de 10 anos dentro do mesmo viveiro e nunca terem se reproduzido. Diagnóstico equivocado de algum veterinário maluco. Como podem ver, até papagaio gay fez parte da minha vida.

Quando chegaram lá em casa eu devia ter uns 5 anos de idade. Meu pai se encarregou de dar os nomes: Gabriel García Marquez e Margueritte Yourcenar. "Hein?", você diria no meu lugar. Coisa de pai intelectual. Antes que eu precisasse de um curso pra aprender a chamar os bichinhos, ele logo simplificou. Ambos são nomes de escritores consagrados das literaturas colombiana e belgo-francesa, respectivamente, e ficaram mundialmente conhecidos pelos apelidos: Gabo e Margô. O que facilitou muito a minha vida. Pois bem. O Gabo morreu Gabo. A Margô, bem... quando se descobriu que era "o" Margô, era tarde demais pra mudar o nome. Morreu papagaio-travesti mesmo. Foi chamado assim até o último currupaco.

Como eu morava no primeiro andar, os dois aprenderam a repetir tudo o que gritava-se lá embaixo. A começar pelo meu nome que vinha da varanda quando meus pais ou a babá estavam à minha procura. Outros nomes como "porteeeeeeiro" e "puta que pariu", em razão de sempre haver joguinhos de béti (lembram?) ou futebol logo ali, eram repetidamente pronunciados pelos dois louros. Eu entrava no elevador e alguém sempre dizia:

- Você que é a famosa Mayra? A gente sempre ouve seus papagaios. Quais os nomes dos seus bichinhos?

Então a criança aqui enchia o peito, respirava fundo, se concentrava e tirava uma onda, claro:

- Gabriel García Maaaaarquez e Margueritte Yourcenaaaaar. Dois escritores estrangeiros. Já ouviram falar?

Então a porta abria e eu saía com a pompa de pirralha metida. Chamar de "Gabo e Margô" era para os íntimos. Só dentro de casa. E os coleguinhas comentavam: "Esses pais da Mayra são esquisitos, né? Dão papagaios pra ela e batizam com nomes que só eles sabem dizer". Pois é. Era assim mesmo. Fazer o que?

E aí que eu cresci com dois escritores "preferidos" que pra mim nada mais eram que dois papagaios fofos. Assim que pude fui conhecer a obra deles, os escritores. Logo me apaixonei pelo Gabo. Já Margô era histórica demais pro meu gosto. Foi assim que comecei a me interessar por literatura: antes mesmo de aprender a ler. Fiz tudo ao contrário. E hoje sou uma alucinada pelos livros e por isso mesmo agora estou me preparando pra enfrentar o mestrado na UnB em Letras-Literatura. Fui aceita esta semana como aluna especial. De volta às aulas aos livros. Porque papagaio hoje em dia, só se for aquele que a gente solta com uma linha e sobe ao céu com a ajuda do vento.

Beijinhos de quem praticamente aprendeu a falar e a ler com dois papagaios.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Mais uma estrelinha no céu


Quando eu nasci, meus dois avôs já haviam partido. Cresci ouvindo histórias de que eram divertidíssimos e com um senso de humor fantástico. Ainda hoje ouço alguém dizer "você teria adorado eles se estivessem vivos".

Então eu tive um avô postiço, daqueles que eu brincava e ganhava presentes como se fosse neta de verdade. E no fundo, no fundo, eu era. Ele, o vovô Heli, marido de uma tia avó, acaba de virar uma estrelinha no céu. Foi embora ontem e deixou saudades. Acordei hoje com a notícia e fiquei um pouco atordoada. Não o via há alguns anos e sempre tinha notícias por um ou outro parente. A ficha tá começando a cair só agora. E tá sendo doloroso.

Era também meu padrinho de batismo. Quando mamãe ainda nem sabia que estava grávida, ele pegou na barriga dela e disse: "A Mayra está aqui". Então ela fez o teste, que deu positivo, e depois nasceu esta menina que vos fala. Acertou duas vezes: na gestação e no sexo da criança.

Seu único filho, o poeta Torquato Neto, se matou aos 28 anos. Nem ele nem minha tia avó foram os mesmos depois da tragédia, mas ele tentava manter a alegria de viver. Viveu do jeito que quis. Era um personagem, uma caricatura. Amava intensamente e sempre soube demonstrar isso. Soube aproveitar muito bem seus 92 anos de vida. Foi bom enquanto durou.

A estrelinha subiu. Hoje a noite vou olhar pro céu e sei que ele vai estar lá sorrindo pra mim, como fazia quando ia me pegar na casa da minha avó pra passar o final de semana nas férias. O céu hoje vai ficar mais feliz, com certeza. E aqui embaixo a gente se conforta com o calor e a lembrança daquele sorriso.

Beijinhos com saudade.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Um é pouco, Dois é bom. E eu quero é mais...


Às vezes é preguiça. Às vezes é só falta de tempo mesmo. E, às vezes, é vontade nenhuma de escrever aqui no blog. Simples assim.

Pois bem, andei sumidinha, de fato. Viajando feito doida. Porque depois que a pessoa aprendeu o caminho do aeroporto ficou impossível. Que eu já gostava de um cartão de embarque não era novidade pra ninguém. E depois que eu resolvi que 2010 seria o ano dos pousos e decolagens, a coisa desandou de vez. Até enjôo de aeroporto eu já tive. Mas passou, rapidinho. Quando não é a passeio, vou a trabalho. Acabo de chegar de Inhotim, em Minas Gerais. Lugar fantástico que merece um post só pra ele depois. Mas só depois.

Mas eu também andei aprendendo coisas novas que tomaram minha atenção. Uma delas é que eu virei tuiteira. Não, pessoa antenada que sou, eu não tinha a manha da parada. Eu não sou nenhuma campeã de audiência - nem quero - mas estou me divertindo com essa ferramenta. O melhor é que eu fiz uma conta há mais de um ano e já tinha mais de 100 seguidores sem nunca ter tuitado nada. Isso é que é índice de popularidade, néam? Lula que se cuide. Continuar assim, bato os 78% de aprovação dele fácil. Hehehe.

Tô brincando de internet nos últimos dias. Desbravando, descobrindo e procurando sarna pra me coçar. Sim, porque não basta a pessoa ter blog, participar de redes sociais, cozinhar no cafofo pra vizinhança, estudar pra tentar mestrado e o escambau. Ela tem também que inventar coisas pra ocupar o tempo que anda sobrando. Deixa tudo andar direitinho que vou atualizando vocês das minhas novas empreitadas. Eu sempre tô me metendo onde não devo.

E nas minhas andanças de mulher-solteira-viajandona-tuiteira, descobri que preciso encontrar um meio termo nos meus textos aqui do Milk Shake: raciocinar entre os 140 caracteres do micro-blog e os muuuuitos caracteres dos meus posts é um bom exercício. Dá até pra perder calorias e ficar (mais) gostoso passar por aqui. E aproveita que tá aqui na página e clica ali no link pra me seguir no Twitter. Eu não falo nada que se aproveite não, mas pouca gente fala. Então pronto. Cada um no seu quadrado e fica todo mundo feliz. A vida é assim mesmo. Como diria a Clarice Lispector: uma missão secreta que nos cabe cumprir todos os dias.

Beijinhos de tuiteira amadora que tá voltando ao mundo milkshakeano.

sexta-feira, julho 23, 2010

Visca Barcelona!


Chegamos em Barcelona em plena véspera de feriado, o dia de San Juan, uma espécie de São João deles onde celebra-se o solstício, noite mais curta do ano e entrada oficial do verão. É uma festa grande na rua, fogos de artifício e foguetes pipocando pra todos os lados, música e tendas na praia, regadas a muito vinho e cava, o espumante deles. E foi neste dia que eu quebrei meu nariz, como já contei aqui. A festa em si é bem divertida, até porque Barcelona reúne gente do mundo inteiro o tempo todo. Você ouve dezenas de línguas diferentes sem parar. Dá pra ficar zonza. Na foto, dá pra notar como a praia fica lotada (fica assim em toda a orla, imaginem!) e a gente volta pra casa com areia até na alma!!!


E eu quebrei o nariz e fui, no mesmo dia, pro hospital, pra praia e pro show do Kiss. Olhava pros fãs chegando todos de caras pintadas e dizia: "Essa galera não sabe o que é ser heavy não. Que mané pintar a cara, metal que é metal usa maquiagem natural, quebra logo o nariz". As amigas não aguentavam e destrambelhavam a rir, néam? E como tínhamos ido à praia mais cedo, estávamos com look verão-total no show. Eu ainda disfarcei com uma blusa preta, mas as duas estavam de havaianas (sim, num show de rock... só em Barcelona) e a Paty ainda abriu a canga no chão enquanto esperávamos sentadas começar. E o melhor: ninguém dava a mínima pra isso.



Conhecemos um barzinho curioso chamado Chupitos, que nada mais são que "shots" de bebidas. A diferença é que o bar não tem mesas e serve apenas isso. E são mais de 300 tipos diferentes que você escolhe pelo nome, sem fazer idéia do que vai vir. Esses da foto levavam chantilly em cima e pegavam fogo. Uns empolgados pediram o Monica Lewinski e quando viram, um copo acoplado a um grande pinto de borracha era colocado em suas bocas e chacoalhado até babarem uma espuma branca. Ficou com nojo? Pode até ficar, mas eles viraram o centro das atenções e a gente riu demais. O Viúva Negra, que uma amiga pediu, prometia causar reações inesperadas. Quando ela virou o chupito, bochechou, engoliu e depois soprou, sentiu calafrios que eu nem quero descrever aqui a cara que ela fez...



Em Barcelona é permitido plantar maconha em casa e também andar pelado na rua. Não necessariamente nessa ordem. Mas se você se deparar com algum peladão no metrô ou na fila do banco, não adianta chamar a polícia. Recolha-se à sua insignificância e finja que não é com você. Tudo muito natural. Só não apele como o cidadão da foto. Se for pra ficar nu, fica de verdade. Porque pelado de boné, mochilinha e Crocs, ninguém merece. E você aí achando que topless nas praias européias era o auge da falta de pudor, né?

Fotos da viagem pra Barcelona aqui.

Beijinhos nada catalães.

segunda-feira, julho 19, 2010

Un peu de Paris


Voltar a Paris pela segunda vez foi interessante. A começar pela completa e irrestrita liberdade de não ter que visitar pontos turísticos obrigatórios. Se fui à Torre Eiffel todos-os-dias que fiquei lá, foi porque, simplesmente, eu queria. E quando decidir não ir, não fui. Sem peso na consciência. Os amigos-companheiros-de-viagem quiseram voltar lá no pôr-do-sol pra tirar as últimas fotos antes de irmos embora da França. Soltei a pérola que saiu estranha, mas convicta, da minha boca: "Vão lá, não aguento mais ir pra Torre Eiffel". Que esnobe, hein?? Hehehe. E me joguei sozinha pra Pigalle. Delícia.


Havia estado em Pigalle somente à noite, para ver as luzes de neón e curtir uma balada. Desta vez, saí de Montmartre andando com um mapa na mão em busca do Café Les Deux Moulins, aquele em que Amelie Poulain trabalhava no filme e onde se passam boas partes das cenas. Descobri uma Pigalle divertida, de gente bonita, construções tortuosas e de muito agito. Beiravam as 8 da noite e o sol do verão ainda ardia no céu. Entrei no café, pedi uma taça de vinho no balcão e sentei-me em uma mesa. Fiquei me sentindo a própria parisiense dentro de um dos meus filmes preferidos, não fosse o guia de Paris que abri pra ver outros lugares interessantes pra se visitar. O café é uma graça. Fui ao banheiro disposta a arrancar uma meia-calça que vestia e que havia puxado o fio loucamente, quando me deparei com um pequeno "museu" com alguns dos principais objetos do filme: o abajour de porquinho, o duende viajante, as polaroides... Uma fofura!!! Tirei um montão de fotos no meu iPhone... que foi roubado assim que cheguei no Brasil. Paciência, néam?


E é lindo como na Europa eles celebram a chegada do Verão! Em Paris, a Fête de La Musique é o evento que rola durante as 24 horas que antecedem a estação do calor. E põe calor nisso! É impressionante como a temperatura muda de uma hora pra outra. Chegamos ainda pegando um friozinho e, como num passe de mágica, bastou o verão mudar no calendário pra estarmos de bermuda e camiseta passeando pela cidade. A Fête de La Musique é uma sensação. Música de todos os lugares do mundo acontecendo por todos os cantos possíveis e imagináveis da cidade. Uma delícia só! Passeando pelo Boulevard Saint Germain vimos tanta gente bonita e ouvimos tanta música boa que dava pra jurar que era uma pegadinha, de tão inacreditável.


Assistimos ao jogo Brasil X Coréia do Norte no bar Favela Chic, de brasileiros. Rolou telão, torcida e muito samba. Os franceses já estavam meio desacreditados e putos com a seleção deles (foram desclassificados um ou dois dias depois) e pareciam bem animados com o Brasil. Fui comprar uma caipirosca e o atendente, em francês, me perguntou se queria vodca nacional ou importada. "Importada, claro!". Então ele me aparece com uma Smirnoff na mão. Hein??? Pára tudo!!! Qual é a vodca nacional, moço? "Ah, só tem Absolut". Pois é nacional mesmo, vai. Vou fazer esse sacrifício... rsrsrs. E tomei a pior caipirosca do mundo. Não pela vodca, mas pelo primo-francês-de-suco-Maguary-de-manga que misturaram. Querer tomar drinque tupiniquim feito por gringo dá nisso.



Detesto cemitérios. Não quis visitar os famosos cemitérios franceses na outra viagem e dessa vez não escapei, terminamos visitando o de Montparnasse. Os amigos insistiram e lá fui eu. Logo de cara encontramos o túmulo de Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre. Tá, foi emocionante. Mas depois a peregrinação em busca de outras lápides me deu uma sensação estranha. Meio aquela coisa de criança brincando de caça ao tesouro. Olha, achei o do Baudelaire!!!. Ou de repente tropeçar onde Júlio Cortazar está enterrado. Eu hein!! Sentei num cantinho e fiquei lendo enquanto meus amiguinhos se divertiam com isso. Gosto mais de gente viva.

Mais fotos da viagem você encontra aqui.

Bisous parisienses.

quinta-feira, julho 08, 2010

Juízo de 20 com infra de 30


Uma das primeiras lições que aprendemos no curso de jornalismo é sobre o famoso lead. Essa palavrinha de quatro letras nada mais é que o essencial, o resumo da notícia que se vai dar, com as principais informações inseridas. A partir daí, o leitor tem uma idéia do que se vai dizer e decide se quer saber detalhes ou não, já sabendo do que se trata.

Mas por que comecei este post falando nisso? Explico! Voltei das férias na Europa esta semana e minha viagem não conseguiria ser descrita sem que eu desse o lead pra vocês: eu quebrei o nariz em Barcelona correndo atrás de um táxi. Prontinho. Entenderam a lição? Eu poderia começar contando minha saga cronologicamente, mas vocês devem concordar que não daria pra passar batido sobre isso, néam? Pois bem, vamos aos fatos.

Chegamos na Catalunha em pleno dia de San Juan, o São João deles, que celebra a entrada oficial do verão. É, simplesmente, a noite mais curta do ano, devido ao solstício. Feriado local, Barcelona fica em festa, com música rolando em todas as praias, com tendas montadas, fogos de artifício e muita gente bonita. Pessoas se espalham pela areia, dançando, namorando, batendo papo e tomando vinho ou cava, como chamam espumante por lá. É muito bonito e sedutor. O astral é incrível. A celebração reúne gente de todos os lugares do mundo, até porque o turismo ali é fortíssimo e gringo é o que não falta na rua.

Tá, mas e o nariz, onde é que entra nisso tudo?? Calma aí que já chego lá. O fim da festa de San Juan é meio reveillon de Copacabana, sabem? Aquela coisa desesperadora de você querer ir embora pra casa e não achar um táxi. Fiquei cerca de quarenta minutos tentando pegar um e quando passavam, estavam ocupados ou, quando livres, não queriam pegar passageiros. Se tornou um desafio conseguir ir pra casa com o dia já amanhecendo. Todos que passavam com luzinha verde, a gente corria, gritava, acenava... na esperança de sensibilizar algum motorista a parar. E numa dessas, a pessoa aqui tropeçou e caiu de cara no meio-fio. Isso mesmo que eu disse: eu caí de cara no meio-fio. Cataploft! Que nem fruta madura. E não ri porque a coisa foi feia. Rsrs. O táxi? Não, ele não parou.

Quando pus as mãos no rosto e só vi sangue, senti meu corpo gelar de pânico e fui em direção a um carro estacionado pra ver como eu estava no espelho retrovisor: não dava pra ver, minha cara estava completamente "pintada" de vermelho e no topo do meu nariz, uma grande ferida. Comecei a chorar: "perdi minhas férias", logo pensei. E era apenas o quinto dia de 18. Então correram na padaria ali perto, compraram água e arrumaram gelo pra me trazer. Lavei o rosto e fiz compressa. Pra completar, estava sem celular e consegui um emprestado de um dos passantes que se consternou com minha situação. Liguei pra amiga que me hospedava e que havia ido pra outra praia. Ela tinha tido mais sorte do que eu e estava dentro de um táxi indo pra casa. Mudou o caminho e foi me buscar. Ufa!

A situação estava sob controle. Em questão de minutos, consegui ser a pessoa mais calma do mundo, acreditem. Já havia me conformado com tudo aquilo e só pensava em ir ao médico, saber o que realmente havia acontecido. Enquanto aguardava minha amiga chegar, passou um catalão e veio falar comigo, mostrou-se bem preocupado e me disse:

- Você precisa passar algo pra não infeccionar isso.
- Mas eu lavei com água. Daqui a pouco vou ao médico, não precisa se preocupar.
- Veja bem, você caiu no meio-fio, no meio da rua, onde as pessoas fazem xixi... Eu moro aqui perto, vamos lá que a gente limpa isso.

Ele disse a palavra mágica: xixi (tudo isso em inglês/portunhol, tá gente?). Quando pensei naquilo me deu desespero e nojo. E eu tava olhando pra um cara que eu nunca tinha visto na vida mas que tinha uma certa razão. Perguntei se ele tinha um telefone e liguei pra minha amiga, avisando que estava indo lá tratar o machucado e que ela desse um toque quando chegasse.

Vou falar uma coisa. As pessoas dizem que os catalães são grosseiros, mal-educados e que nunca se importam com estrangeiros. De fato, vi muitos assim. Mas essa criatura que veio me ajudar, caiu do céu. Chegamos ao apartamento dele (aliás, um senhor apartamento, viu...), deitei na banheira, ele forrou meu rosto e lavou cuidadosamente minha ferida. Passou um antiséptico e então minha amiga chegou pra me buscar. Foi lindo tudo isso.

Sabe aquele seguro-saúde de viagem que é obrigatório mas que muita gente insiste em não comprar pra enconomizar 80 dólares? Pois é, foi ele que me salvou. Passamos em casa pra pegar o cartão e terminei caindo no sono enquanto aguardava retorno. Acordei parecendo o Sloth, aquele monstrengo dos Goonies, sabem? Nariz torto e cara (muito) inchada. E um sorriso imbecil na cara de quem resolveu que não perderia as férias por conta disso. Já saí do banho me auto-sacaneando. As amigas não entenderam nada mas entraram no clima. O seguro me mandou pra um super centro de traumatologia em Barcelona. Fui prontamente atendida e muito bem tratada por todos. O raio x apontou um fratura leve e Luiz Alberto, traumatólogo que cuidou de mim (virou quase um amigo de infância), me passou antiinflamatório e alguns cuidados pra tudo correr bem. Só não relaxei quando me pediu pra voltar em 5 dias que um otorrino veria se teria que engessar. Oi?? Como assim engessar, Luiz Alberto???

- Calma, Mayra, se a sua recuperação for boa, isso não será necessário.
- E se precisar, eu vou ficar com um capacete de gesso??? Luiz Alberto, eu estou de férias a ainda vou ficar 12 dias viajando!!! Faz isso comigo não!
- Calma, Mayra. Hoje em dia se engessa só o nariz.
- Ah tá, só o nariz, beeeeem melhor, né? Fala sério...

Então me veio à mente aquela cena de Sideways, em que a japa quebra o nariz do fulano com porrada e ele fica uma parte da viagem com um curativo gigante no meio da cara. Queria aquilo pra mim não. E aí, resolvo descontrair e olho pra minha amiga e digo em português com os olhos marejados e voz de choro: tô horrível e não vou pegar ninguém assim! Hahahaha. E aí as duas começam a rir descontroladamente. Luiz Alberto, sem entender nada, começa a rir junto, claro.

- Ok, Luiz Alberto. Mas e a ferida, vai ficar aberta assim?
- É melhor, pra cicatrizar.
- Mas eu tô indo pra praia quando sair daqui!!! (a pessoa animada saiu de casa pra ir pro hospital já de biquíni, entendam).
- Ah, vc vai pra praia agora (rindo muito)? Então a gente põe um curativo só pra proteger da areia.

E lá se vai a Mayra com um curativo ri-dí-cu-lo branco cobrindo todo o nariz passear por Barcelona. E sabem da maior? Fui pra praia, sim. Fui conhecer vários lugares ótimos e não perdi o bom humor por isso. Ah, e sabem onde eu terminei nesse mesmo dia? No show do Kiss que aconteceu no Montjuïc, uma montanha bárbara que tem lá!!! Que, aliás, foi fantástico. Os caras são demais!

No dia seguinte, minha mãe vê na televisão que 30 pessoas foram atropeladas por um trem na noite de San Juan e que 12 morreram em Barcelona. Manda uma mensagem pro meu celular pedindo notícias e no que respondo falando que tinha ido ao hospital, quebrado o nariz mas que tava tudo bem, ela pira por completo. Uma falando de um assunto e a outra de outro. Quase mato uma mãe do coração... rsrs.

Bom, dado o lead, em breve dou notícias mais detalhadas da viagem. Agora vocês vão entender quando virem um certo "terceiro olho" na minha pessoa nas fotos... hehehe.

Beijinhos de quem tá com o nariz quase 100%, só rezando pra cicatriz não ficar muito grande. E não, eu não precisei engessar. Um médico argentino liiiiiiiiiiiiiiindo de morrer me atendeu e disse que eu poderia seguir viagem tranquila. Adorei.

terça-feira, junho 01, 2010

A Unimed é quem paga!


Então a pessoa tinha tomado um vinhozinho na casa dos amigos e resolveu largar o carro lá pra não dirigir sob efeito de álcool. O casal, muito solícito, decidiu me levar em casa, coisa que aceitei de bom grado. O preço do táxi em Brasília anda pela hora da morte.

Chegando ao condomínio e nos aproximando da minha residência, me dou conta do impensável: esqueci as chaves de casa no porta-luvas do meu carro. Mania antiga que eu ainda não consegui largar. Close na cara de pânico da mocinha aqui que logo pensou: "Putz, vieram me trazer aqui e eu não tenho como entrar, que bonito isso!". Meio sem-graça, dou a notícia aos bons samaritanos e então decreto: vamos arrombar a janela!

- Que é isso, Mayra!
- Ah, não disse pra quebrar, mas vamos forçar a fechadura que em algum momento deve ceder.
- Será?
- Bom, eu nunca tentei, mas aqui é praticamente a Vila do Chaves e as casas ficam mesmo meio abertas...

Eis que passa, nesse instante, uma das vizinhas com seu adorável cachorrinho e me vê naquela siutação: forçando a janela da minha própria casa. E diz pra mim: "Ih, já passei por isso! Faz assim: suspende a janela, empurra pra lá, força daqui e pluft, o trinco cai sem danificar nada". Agradeço mais-sem-graça-ainda. E não é que funcionou? Que danadinha, gente!

Agora a parte divertida da coisa toda. O tal casal fofinho que foi me levar estava indo à minha casa pe-la-pri-mei-ra-vez. E sim, entraram pela janela. Primeiro a esposa, depois ele e por fim, a anfitriã. No topo dos meus 1,58m, dei um pulo de costas e sentei na janela, então joguei meu corpo pra trás, caindo no sofá. Quase um salto em vara das Olimpíadas. Todo mundo dentro, todo mundo acomodado. Então vamos abrir mais uma garrafa de vinho e brindar à nossa performance, néam?

O papo tava ótimo e o casal resolveu ir embora. Pela janela, é claro. Nisso todo mundo já estava às gargalhadas. Outro amigo havia ficado de ir me buscar pra irmos pra uma festa. Chegou enquanto eu me arrumava. Eu só gritei lá do segundo andar: "Entra pela janela, amore! A porta tá sem chaves!". Sem mais perguntas e com a agilidade de um atleta, em poucos segundos encontrava-se lá dentro.

Fico pronta. Outra puladinha pra irmos pro carro e fomos curtir a balada. Já tava íntima daquela janela. A festa foi ótima. Morta de cansada e toda descabelada de tanto dançar (eu bato cabeça até ficar tonta na pista, sabem?), consegui uma carona pra voltar pra casa. O mocinho, muito prestativo e gentil, chega ao condomínio e faz questão de me deixar na porta de casa. Pra evitar todo e qualquer tipo de constrangimento, digo:

- Pode ficar aqui, eu sigo sozinha.
- Que é isso, tá tarde. Faço questão de deixá-la na porta.

Close na cara de Ohw My Gowd!

Aí eu queria enfiar minha cara num buraco. O rapaz insiste, entra no condomínio e estaciona quase dentro da minha casa. Agradeço, saio do carro e fico na porta da minha residência dando tchauzinho pro cidadão (vai embora, meu filho, que eu preciso entrar e não quero pagar mico). Mas o mocinho não vai, não vai e não vai. E então eu comecei a ficar com muita vergonha. Destrambelhei a dar tchauzinho com um sorriso amarelo e ele não-engatava-a-porra-da-ré. Então me aproximei da porta do carro e falei: "Meu bem, pode ir, eu tô bem, mais bem entregue impossível". Não adiantou, disse que só ficaria tranquilo depois de me ver entrar. Foi aí que eu deixei de ser uma lady. Meu sangue subiu, esquentou de verdade e eu contei até 10 pra não ter uma síncope. E abri o jogo:

- O negócio é o seguinte. Estou sem a chave de casa e preciso entrar pela janela. E não, você não precisa ver isso sendo feito por uma mulher de vestido e salto alto. Ok?

O mocinho ficou branco olhando pra mim e eu com cara de "vaza daqui agora, sacou?". Desencanei, mandei minha dignidade à merda e pulei a janela com fé e cabeça erguida. Tchau e benção. No dia seguinte, a primeira coisa que fiz quando acordei foi ir buscar meu carro. E providenciar uma cópia da chave de casa pra ficar dentro da carteira. Porque doida que é doida, anda com DUAS chaves da casa pra não dar vexame nas próximas vezes.

Beijinhos de quem ficou cheia de hematomas por conta dessa peripécia.